Domingo, 04 de Maio de 2008 | Versão Impressa

Atendimento é desigual entre a rede pública e a particular

Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgado na semana passada mostra que é grande a desigualdade no País no atendimento da educação infantil.

Entre crianças de até 3 anos, por exemplo, 29,6% do quinto mais rico da população freqüentava a escola. Entre as mais pobres, eram apenas 9,7%. Quase todos os filhos das classes mais altas já freqüentam a pré-escola no País.

"Essa desigualdade é uma das coisas mais perversas da educação infantil. Quando os pais têm dinheiro eles colocam suas crianças nas escolas, mas os mais pobres não têm essa opção porque faltam vagas", diz Angela Barreto, consultora da Unesco no Brasil e co-autora do estudo. Angela também faz parte do comitê diretivo do Movimento Interfóruns da Educação Infantil no Brasil (Mieib), que defende um valor por aluno anual na creche de R$ 5.543 e na pré-escola, de R$ 2.402.

Apesar desses valores serem até 500% maiores que os estipulados pelo Fundeb para a educação infantil na rede pública, eles são ínfimos se comparados ao que investem escolas particulares. Um exemplo é a Prime Time Child Development, aberta há dois meses em São Paulo apenas para atender crianças com até 5 anos de idade. O valor da mensalidade na escola começa em R$ 2.500, ou seja, já é próximo ao máximo previsto pelo Fundeb para todo o ano.

PROJETO ESPECIAL

A escola é uma das poucas que foi projetada especificamente para atender bebês e crianças pequenas - a maioria dos estabelecimentos privados são adaptações de casas ou pequenos edifícios.

Lá, os arquitetos pensaram em como a luz do sol influenciaria nas cores do ambiente e desenharam janelas na altura dos olhos das crianças.

O projeto também favorece grandes espaços, em vez de salas separadas, onde os alunos têm atividades de artes, música, teatro, dança, ciência.

Do lado de fora, um playground trazido da França, específico para crianças de 0 a 3 anos, horta e o chamado "water play", um conjunto de tubos que soltam água.

Todos os profissionais que lidam com as crianças são educadores e ainda recebem uma formação continua em neurociência, psicanálise e desenvolvimento infantil oferecida pela própria escola. "Percebo que muitos profissionais vêm trabalhar aqui porque têm essa possibilidade de estudar", diz a diretora Christine Bruder.

Segundo o relatório da Unesco, a formação dos educadores que trabalham na educação infantil, principalmente em escolas da rede pública, também é um problema no País. Dos professores que atuam nas creches e pré-escolas, 14% não estão habilitados nem em curso normal de nível médio nem no ensino superior.