Quarta-Feira, 07 de Maio de 2008 | Versão Impressa

''Não é hora de complacência''

A inflação é a grande ameaça à economia mundial neste momento, alertaram presidentes dos maiores bancos centrais, no final de um encontro em Basiléia, na Suíça. ''Não é hora de complacência'', disse o porta-voz do grupo e chefe do Banco Central Europeu, Claude Trichet, expressando uma opinião partilhada por seu colega brasileiro, Henrique Meirelles. A economia global, segundo os participantes do encontro, tem suportado bem os efeitos da retração americana, graças, principalmente, à resistência dos emergentes, como China, Brasil, Rússia e Índia. Muito mais danosa vem sendo a disparada dos preços de produtos básicos, especialmente do petróleo e dos alimentos, de acordo com a avaliação das autoridades monetárias.

O relativo otimismo quanto ao crescimento mundial foi sustentado por estimativas do Banco de Compensações Internacionais (BIS, Bank for International Settlements), também conhecido como o banco central dos bancos centrais. De acordo com essas projeções, a produção global deve crescer 3,6% em 2008. A economia brasileira deverá expandir-se 4,7%; a chinesa, 9,9%; a indiana, 7,7%; a russa, 7,2%; e a argentina, 7%. A produção mexicana, mais dependente do nível de atividade nos Estados Unidos, deverá expandir-se apenas 2,5%.

O alerta dos presidentes de bancos centrais coincidiu com a divulgação, pelas Nações Unidas, de um cálculo de pessoas atingidas pela fome em todo o planeta, em conseqüência do encarecimento da comida. Segundo esse cálculo, 100 milhões já são afetados pela crise dos alimentos e a América Latina, apesar de grande produtora, não ficará imune: 10 milhões de pessoas na região poderão sofrer os efeitos da carestia.

Para o Brasil, segundo Meirelles, não houve novidade: ''Já dissemos tudo na Ata do Copom.'' A ata, divulgada uma semana depois da última elevação dos juros básicos no Brasil, apresentou uma análise ampla da inflação, confirmada, pouco depois, pelos componentes do Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M). O encarecimento das várias matérias-primas tem pressionado os custos não só do agronegócio, mas também de outras cadeias produtivas. O repasse tem sido até agora limitado, mas poderá ser mais amplo, se as condições de mercado forem favoráveis.

O alerta de Trichet e de seus colegas é bem fundamentado e o risco é real: se não houver um firme esforço de contenção, a alta de preços tenderá a generalizar-se e as políticas de ajuste, depois, poderão ser muito dolorosas. Mas podem os bancos centrais, sozinhos, cuidar com eficiência do problema?

Provavelmente não, embora as autoridades monetárias possam desempenhar um papel importante na contenção da alta de preços. A especulação nos mercados de produtos agrícolas e de outros produtos básicos aumentou nos últimos meses. Isso reforçou a tendência de aumento das cotações. Uma das conseqüências foi a piora da situação dos consumidores pobres, principalmente nos países menos desenvolvidos e mais dependentes de importações agrícolas. Essa especulação foi em parte estimulada pela grande redução de juros nos Estados Unidos. Uma política monetária menos frouxa, na maior parte do mundo rico, pode limitar o jogo especulativo.

Mas os bancos centrais não podem cuidar do socorro de emergência às populações mais pobres. Essa tarefa cabe, em primeiro lugar, a instituições multilaterais, como o Banco Mundial e o FMI. O Fundo já discute programas de ajuda a países com dificuldades para manter a importação de alimentos. A ONU estimou o custo das operações de ajuda imediata, mas não recebeu, ainda, o dinheiro necessário. Sem uma ação mais pronta e mais coordenada, será difícil evitar um desastre nas áreas menos desenvolvidas.

Sejam quais forem as operações de ajuda e as medidas monetárias para conter a especulação, será indispensável a ampliação da oferta de alimentos. Ainda não há escassez, em sentido físico, mas estoques de vários produtos diminuíram perigosamente nos últimos anos. A resposta só pode ser dada com boas políticas de produção e de comércio - e a grande contribuição do mundo rico será a redução de subsídios e de barreiras causadores de distorções nos mercados.