Quarta-Feira, 07 de Maio de 2008 | Versão Impressa

Maior desafio é levar ajuda às áreas mais devastadas

Mariana Della Barba

No rastro do ciclone Nargis, pelo menos 1 milhão de pessoas estão sem acesso à água, comida e abrigo. A tragédia é tanta que algumas organizações humanitárias chegaram a comparar a situação à do tsunami que atingiu a Ásia em 2004. Essas mesmas ONGs fizeram ontem apelos por doações e alertaram sobre a dificuldade de se chegar às áreas remotas, justamente as mais afetadas.

"Nosso maior desafio agora é chegar até o delta do Rio Irrawaddy e as áreas de difícil acesso. Estamos a caminho das regiões fora de Rangum, mas os problemas logísticos são grandes", disse ao Estado o suíço Frederic Baldini, da ONG francesa Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Entre os empecilhos estão o bloqueio - por árvores caídas e destroços - das pouquíssimas estradas na costa e o risco de usar o espaço aéreo num país controlado por um junta militar. "A comunicação também é péssima: nem telefones fixos nem celulares funcionam", disse Baldini, acrescentando que outro desafio é trabalhar sem energia elétrica.

O MSF já teve problemas, dois anos atrás, para trabalhar com o regime de Mianmar - que considera uma ameaça a atuação de organizações estrangeiras no país. Mas Baldini explica que, no momento, funcionários da ONG não enfrentam problemas com o governo. "Temos liberdade para nos deslocar e distribuir alimentos."

Segundo o suíço, a devastação é total. "Calculamos que, por onde passou, o ciclone destruiu cerca de 80% das casas". A maior emergência agora é fazer chegar comida e água potável às vítimas. O MSF está distribuindo os chamados alimentos terapêuticos. Ricos em nutrientes, eles são especialmente úteis no país, onde o preço de itens básicos, como o arroz, dobrou nos últimos dias.

Falta de água potável e enchentes também preocupam. "Há o risco de doenças infecciosas, como o cólera, que se espalhariam rapidamente", disse Baldini. "Estamos monitorando a situação e distribuindo kits para purificar a água."