Domingo, 11 de Maio de 2008 | Versão Impressa
Pacotinho para a Amazônia
O PAS, tal como apresentado pelo presidente da República, nada ou quase nada acrescenta a propostas anteriores de integração da Amazônia no espaço econômico nacional. Como informou reportagem do Estado, na edição de sexta-feira, 19 das 24 páginas de um folheto distribuído na solenidade contêm dados sobre obras do PAC, lançado no começo de 2007: portos, hidrovias, ferrovias, centrais elétricas e projetos de saneamento. As maiores obras projetadas para a Amazônia, as hidrelétricas do Rio Madeira, foram concebidas antes do PAC e ocasionaram divergências graves dentro da administração federal por causa da oposição do Ministério do Meio Ambiente.
Noutro folheto, o governo expõe ações de combate ao desmatamento vinculadas à Operação Arco Verde. Nem esse nome é inteiramente original. Na primeira versão do PAS, um documento apresentado em abril de 2004, menciona-se uma área de exploração agropecuária denominada "Arco do Fogo" ou "do Desmatamento" ou "das Terras Degradadas".
Além de obras do PAC, o PAS inclui, como também mostrou a reportagem, várias medidas já em vigor, como o recadastramento de terras nos 36 municípios com maiores taxas de desmatamento, embargo de propriedades com áreas desmatadas ilegalmente e critérios mais severos para concessão de créditos à atividade agropecuária, especialmente pelos bancos oficiais.
Como outros planos apresentados pelo governo do presidente Lula, também esse é vago quanto aos detalhes operacionais e financeiros. Os documentos não mencionam o dinheiro necessário para a execução das políticas - nem mesmo para os créditos destinados a reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, teve de enfrentar uma pergunta sobre o assunto e mencionou, vagamente, uma cifra de R$ 1 bilhão para os créditos.
As medidas anunciadas pelo presidente não passam de um arremedo de planejamento, mas ficarão subordinadas a um Conselho Gestor, chefiado pelo ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger. Além disso, o presidente Lula atribuiu à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o título de mãe do PAS. O PAC, muito mais detalhado e com recursos orçamentários definidos, também tem mãe, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e mesmo assim a sua execução continua insatisfatória. É difícil imaginar como a ministra Marina Silva e seu colega Mangabeira Unger poderão apresentar resultados pelo menos semelhantes àqueles mostrados pela chefe da Casa Civil.
A Amazônia, disse o presidente em seu discurso, é "nossa" desde quando Pedro Álvares Cabral pôs os pés em terra brasileira. Não se sabe de onde ele tirou essa idéia, mas essa tolice, mais do que pitoresca, é preocupante. A formação do território brasileiro envolveu muita ousadia e muita iniciativa - a começar pela violação do Tratado de Tordesilhas pelos bandeirantes. Para desenvolver e defender a Amazônia, o governo federal não terá de violar nenhum tratado. Só precisará de competência, determinação e realismo geopolítico, virtudes não exibidas, por exemplo, no caso da demarcação das terras indígenas em Roraima.