Domingo, 18 de Maio de 2008 | Versão Impressa
Narcotráfico contra-ataca no México
Em resposta a programa antidrogas, traficantes mataram dez integrantes da cúpula da polícia em dois meses
Ruth Costas
Foi a décima autoridade envolvida na cruzada contra o narcotráfico do presidente Felipe Calderón a ser morta em dois meses. Entre as baixas estão também o diretor do departamento de crime organizado da Agência Federal de investigações, Roberto Velasco, e o inspetor José Aristeo, diretor da área de Estado-Maior da Polícia Federal.
"Calderón adotou uma estratégia com base em demonstrações de força e está se dando conta de que o crime organizado pode ser um adversário duro nesse quesito", disse ao Estado Erubiel Tirado, especialista em segurança da Universidade Ibero-Americana, na Cidade do México. "O contra-ataque não só está lançando dúvidas sobre a eficácia de sua política de segurança - um dos pilares da popularidade do presidente -, mas também sobre a capacidade das instituições mexicanas enfrentar esses cartéis."
No total, cerca de 1.200 pessoas já morreram este ano em ajustes de contas entre grupos criminosos e na guerra com as forças oficiais. Ano passado, foram 2.794 mortos. Além disso, cada vez mais as ações dos narcotraficantes impressionam por sua audácia e crueldade.
Em 2006, o país ficou chocado quando homens armados invadiram uma boate na cidade de Uruapán e lançaram cinco cabeças sobre a pista de dança. Desde então, decapitações, torturas e mutilações tornaram-se ainda mais freqüentes - bem como a mórbida prática de fixar mensagens nos corpos das vítimas com facas ou furadores de gelo.
Uma comparação simples dá a medida da dificuldade em combater quem abastece o mercado mais lucrativo do planeta. Semana passada, após meses de discussão, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou a ajuda americana para o combate ao narcotráfico no México.
Se o projeto passar pelo Senado, Calderón receberá US$ 400 milhões este ano em equipamentos, assessoria e treinamento no programa batizado pelo governo dos EUA de Iniciativa de Mérida, mas que muitos chamam de "Plano México" - alusão ao Plano Colômbia.
Em novembro, em uma única apreensão, o governo mexicano confiscou 23,5 toneladas de cocaína, quantidade que permitiria ao cartel do Golfo ou ao de Sinaloa obter os mesmos US$ 400 milhões no mercado negro americano.
Se Calderón nunca pensou em desistir de encarar tamanho desafio é porque, ao menos até agora, ele lhe tem rendido bons dividendos políticos. Eleito em 2006 com apenas 35,8% dos votos, ele subiu quase 30 pontos nas pesquisas de popularidade ao fazer da segurança sua prioridade.
A ofensiva começou com o envio dos 30 mil homens para nove Estados problemáticos, entre eles Michoacán, Baixa Califórnia e o Triângulo Dourado, que inclui Sinaloa, Durango e Chihuahua. Também foram extraditados mais de 60 traficantes e afastados 282 oficiais da polícia federal, em uma tentativa de desmantelar as redes de cooperação com o crime.
RESULTADOS
Por enquanto, os resultados são tímidos. "As apreensões aumentaram 30% em um ano e alguns traficantes do segundo escalão foram capturados, mas não há sinais de que a violência começará a cair", disse José Maria Ramos, especialista em segurança do Colégio da Fronteira Norte, em Tijuana.
Como já parece ser uma constante em muitos países que enfrentam o problema, sempre que o governo tenta fechar o cerco com o Exército e a polícia, o narconegócio se retrai aqui, para expandir-se ali. A droga passa de poucas para muitas mãos e se diversifica em suas rotas, mercados consumidores e técnicas de produção. No entanto, nunca - ou quase nunca - entra em franco declínio.
"Paradoxalmente, as restrições à oferta acabam elevando o preço da cocaína e até ajudam os cartéis a obterem mais lucro", disse Arturo Arango, pesquisador do Instituto Cidadão de Estudos sobre a Insegurança. Para analistas, o contra-ataque dos traficantes é um sinal de que está na hora de Calderón fazer uma revisão estratégica de seu programa antidrogas. A idéia é que o uso da força não seja a única grande aposta, como tem sido até agora, com o polêmico envolvimento do Exército.
"Será necessário um trabalho maior de prevenção da violência e fortalecimento das instituições em Estados vulneráveis", afirmou o criminalista Martín Gabriel Barrón, do Instituto Nacional de Ciências Penais. "Poderíamos investir em projetos sociais para oferecer alternativas aos jovens, por exemplo, ou programas para a recuperação de dependentes químicos, além de aumentar os esforços anticorrupção."