Terça-Feira, 20 de Maio de 2008 | Versão Impressa
Países podem questionar líder eleito para OMPI
Australiano que derrotou brasileiro para presidir agência de patentes teve imunidade suspensa para averiguação de cartas com acusações contra ele
Jamil Chade
Gurry era o candidato dos países ricos, que defendem uma posição contrária à do Brasil no que se refere às patentes, principalmente de medicamentos. As cartas anônimas dizem que o australiano teria desviado recursos, além de acusá-lo de assédio sexual e de ter comprado uma casa por US$ 4 milhões. Gurry, que é o atual vice-diretor da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), avisou à polícia e, no dia de sua eleição, a entidade recebeu um pedido para que a investigação fosse iniciada. No total, dez pessoas tiveram a imunidade diplomática suspensa, inclusive altos funcionários da entidade.
Documentos obtidos pelo Estado mostram o pedido de suspensão da imunidade diplomática feito pelo governo suíço. Oficialmente, a Justiça alega que isso aconteceu em razão da queixa do próprio Gurry. Mas, para a polícia, a suspensão da imunidade pode abrir a possibilidade de investigar os motivos de as cartas terem sido enviadas.
O caso surge na semana em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) precisa fechar a estratégia para lidar com as patentes no setor farmacêutico. ''Esperamos fechar um acordo'', disse ontem o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Michael Leavitt.
INSATISFAÇÃO
Vários países estão insatisfeitos com a escolha de Gurry para comandar a OMPI e cresce o sentimento de que a eleição possa ser questionada antes que o australiano seja endossado pela assembléia-geral da entidade, em setembro. Países como Honduras defendem que a indicação não seja aprovada. Segundo diplomatas, grupos informais estão se reunindo para debater a situação. A diplomacia brasileira já tinha conhecimento tanto das cartas contra Gurry como da decisão de suspender sua imunidade diplomática, mas, por enquanto, não tomou a iniciativa de questionar a eleição do australiano. Esse não é o primeiro caso de denúncias envolvendo a OMPI. As eleições estão ocorrendo porque o atual diretor, o sudanês Kamal Idris, foi acusado de modificar a data de seu nascimento para poder concorrer a postos na organização. Ele também foi alvo de matérias na imprensa suíça sobre desvios de verba. Pressionado, aceitou deixar a entidade, mas continuará recebendo seu salário.