Sexta-Feira, 23 de Maio de 2008 | Versão Impressa

Chão de estrelas para os 100 anos de Silvio Caldas

Seresteiro que morreu em 1998 e que hoje completaria seu centenário pode ter relançados seus discos da Ariola

Roberta Pennafort, RIO

Camila Caldas tem 30 anos, orgulha-se de ser filha de um dos maiores cantores que o País já conheceu, mas a maior parte das pessoas com quem ela convive não sabe de quem se trata. Mesmo no ano de seu centenário, Silvio Caldas, que morreu aos 89 anos, há uma década, não tem tido o nome lembrado. "Eu conheço só porque era meu pai, senão dificilmente eu saberia", admite Camila, nascida quando ele já era septuagenário.

Entre seus pares, Silvio, intérprete de sambas e serestas, foi o que teve vida e carreira mais longas: Orlando Silva se foi aos 63 anos; Francisco Alves, aos 54; Nelson Gonçalves, aos 79; Mario Reis e Vicente Celestino, aos 74. Contrariando as várias despedidas que anunciara, o "caboclinho querido", que nasceu a 23 de maio de 1908, deixou de cantar aos 87 anos - a última apresentação foi na companhia do grupo Trovadores Urbanos, em São Paulo.

Empurrada pela efeméride, a Sony BMG estuda o relançamento de discos que ele gravou pela Ariola (há mais de 30 em seu catálogo). É uma pena, diz a família, que Silvio não tenha visto isso acontecer. "Antes de morrer, ele se perguntava como certas músicas faziam sucesso e ele não fazia mais", lembra Camila. "Mas não tinha revolta. Isso é coisa do tempo."

O cantor Zé Renato, que conviveu com Silvio desde criança (o cantor era amigo de seu pai) e lançou dois discos com seu repertório - Arranha Céu, em 1994, com sucessos como Faceira, Minha Palhoça e Mulher, e Silvio Caldas 90 Anos - Zé Renato e Orquestra, em 1998, que tinha Arrependimento e Serenata -, acha que faltam homenagens àquele que foi um dos maiores nomes da chamada época de ouro da música brasileira. "Cantores como Silvio Caldas, Orlando Silva e Francisco Alves nunca deixaram de ser referência, mesmo com o afastamento involuntário deles", considera Zé. "Um cara com a importância dele merecia ser mais lembrado, ainda mais no ano do centenário."

Alçado à fama pela participação em programas de rádio (Mayrink Veiga, Sociedade, Tupi, Nacional), Silvio não se fez só em cima do vozeirão; era compositor reconhecido. Fez melodia à altura da incrível letra de Chão de Estrelas, do parceiro Orestes Barbosa. A canção é considerada a obra-prima da dupla: "A porta do barraco era sem trinco/ Mas a Lua furando nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão/ Tu pisavas nos astros distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão."

Existe um lugar onde Silvio Caldas é lembrado anualmente. É Conservatória, a 140 quilômetros do Rio. É nesse distrito da cidade fluminense de Valença que se realiza há uma década o Festival de Seresta que leva o nome do representante maior do gênero. A festa é grande, e toma a praça principal.

"Tivemos a idéia quando ele morreu, para preservar sua memória. Pensei: se o festival der certo, seu nome estará perpetuado. E deu! Conservatória tornou-se a capital da seresta no Brasil", diz Maria Vitória Souza Guimarães Leal. Pedagoga e responsável pelo núcleo da Terceira Idade da Universidade de Nova Iguaçu, ela é, acima de tudo, fã incondicional de Silvio Caldas. "Ele tinha uma voz maravilhosa, um estilo próprio e inconfundível, era capaz de interpretações magistrais e só cantou músicas genuinamente brasileiras."

Este ano foram 41 candidatos que apresentaram músicas já cantadas por Silvio. A finalíssima foi em 3 de maio e o vencedor foi Elohin Seabra, com Ontem, ao Luar, de Catulo da Paixão Cearense e Pedro de Alcântara, gravada em 75 em LP homônimo. A família de Silvio participa do júri - chega a alugar casa em Conservatória para ver tudo de perto. "A gente vai todo ano, sem falta", conta a viúva, Miriam, que se casou com ele aos 17 anos (o noivo tinha 56).

"Os velhinhos estão morrendo e, com eles, o hábito de ouvir Silvio Caldas", lamenta Sônia Regina Lucas, sobrinha-neta do cantor. "Esse centenário tem de ser muito celebrado!"