Domingo, 25 de Maio de 2008 | Versão Impressa
Após 30 anos de luta, movimento gay quer mais que só um dia de Parada
Para líderes, importante agora é tornar homofobia crime, garantir união civil e poder mudar nome de transexuais
Bruno Paes Manso e William Glauber
Ao desviar a atenção dos policiais que impediam o início da marcha em 1997, Kaká simulou um ataque cardíaco, parou o trânsito e assim abriu caminho à visibilidade gay - a maior conquista do movimento até hoje no Brasil. Tinha início ali uma nova fase. ''Hoje as pessoas não têm medo de ser o que são. Falta agora conquistar respeito.''
Com a mesma idade da carreira da drag queen, a fundação do grupo Somos e do jornal Lampião da Esquina, em 1978, é considerada o marco inicial do movimento de luta em defesa dos direitos gays no Brasil. Existe um certo consenso entre os ativistas no balanço de avanços e impasses. Melhorou a aceitação ao grupo, e os costumes na sociedade se flexibilizaram. ''Hoje é mais leve sair do armário (assumir a homossexualidade). Existe uma maior tolerância aos casais que demonstram afeto em público, coisas que não existiam antigamente'', afirma Nelson Pereira, ex-presidente da Parada.
A visibilidade proporcionada pela Parada foi um dos aspectos que mais contribuíram para isso. ''Você imagina aquela bichinha, no interior de Rondônia, assistindo ao lado dos pais às imagens da Parada Gay com milhões de pessoas na rua. Isso muda as cabeças. Isso é político. E a causa é sofisticada. Reivindica-se o direito de amar'', afirma o escritor João Silvério Trevisan, de 63 anos, um dos fundadores do Somos e do Lampião da Esquina.
Em relação aos impasses, foram poucos os avanços na legislação. Para a próxima década, o secretário para América Latina e Caribe da Ilga (Associação Internacional de Lésbicas e Gays), Beto de Jesus, apresenta três frentes de atuação. ''O desafio é nos mobilizarmos para aprovar leis em âmbito federal. Precisamos de lei para parceria civil, outra que torne crime a homofobia e uma terceira que mude os nomes dos transexuais.''
DIÁLOGOS
Para conquistar esses direitos, o movimento gay precisará aprender a dialogar com a própria base GLBT e a sociedade civil, avaliam os antropólogos Regina Facchini e Julio Assis Simões, autores de Na Trilha do Arco-Íris: Do Movimento Homossexual ao GLBT. ''As paradas são muito importantes, mas o movimento precisa melhorar o diálogo para não se firmar como um movimento de massa de um único dia do ano. O ativismo ainda está focado no diálogo com o Estado, fóruns e entidades'', diz Simões. Apesar das milhões de pessoas na Parada, Regina avalia que falta articulação para que os gays entendam que há direitos a conquistar. ''O movimento gay não é de massa. Se fosse, as coisas já teriam mudado há muito tempo. O ativista tem de aprender a falar ao coração das pessoas.''
A dificuldade em fortalecer o diálogo com a massa de gays e lésbicas no Brasil remete à origem do movimento. Quando o Grupo Somos foi fundado e o Lampião da Esquina foi para as bancas, as esquerdas viviam épocas conturbadas. Grandes heróis das causas coletivas, como Che Guevara, eram cultuados em discussões intermináveis sobre luta de classes e estratégias para derrubar o regime militar. Ficava difícil debater o direito à orientação sexual, assunto que costumava ser mantido em segredo ou discutido entre quatro paredes.''Essa bandeira era vista como briga menor. Eu ia às reuniões da PUC, via aqueles estudantes com claras dúvidas sobre sexualidade, querendo discutir o papel da classe operária no País. Ninguém queria mudar de assunto'', lembra Trevisan.
Ex-seminarista e anarquista, Trevisan havia morado na Califórnia dos anos 1970. Respirou os ares da contracultura e viveu a onda do gay power nos Estados Unidos. Quando chegou ao Brasil, iniciou sua luta sem meias palavras. Lembrava de como os regimes socialistas eram sexistas e machistas, acusava Cuba de perseguir homossexuais e criticou abertamente o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva quando ele disse que não havia gays no movimento operário. ''Em 1980, militantes do MR-8 invadiram e bateram em mulheres em um congresso feminista na PUC. Nossa bandeira não coincidia necessariamente com a dos operários. Mas essa era uma visão quase solitária.''
No começo dos anos 1980, um grupo de barbudos ''não-entendidos'', como são conhecidos os heterossexuais, começou a freqüentar reuniões dos grupos gays em São Paulo. Eram militantes da Convergência Socialista, que na época era uma corrente de esquerda petista. ''Eles queriam cooptar as lideranças. Era engraçado. Para provocar, a gente passava a mão neles, que ficavam ofendidos, sem jeito. Logo nos 1980, lideranças do movimento gay foram cooptadas. Acabou assim o diálogo com a sociedade e a conversa passou a ser direta com o poder. Por isso, o movimento não se popularizou e o diálogo dos integrados no grupo não teve continuidade.''
FOCO NO CONSUMO
Ao longo dos anos 1980 e 1990, a epidemia de aids direcionou os esforços do movimento a trabalhos de combate à disseminação do vírus e assistência aos doentes, obtendo recursos que até hoje sustentam a maioria dos grupos que militam em torno da causa gay. A Parada deu nova força aos gays no fim da década passada, mas a caminhada ainda deve ser longa. ''Parte da aceitação dos gays deve-se à questão do consumo. Eles têm dinheiro e disposição para comprar. Por isso, devemos ficar atentos para saber até que ponto é real a aceitação da diversidade ou se apenas são aceitos como consumidores'', alerta o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ). ''Outro desafio é lutar para que as lideranças de hoje não sejam cooptadas pelo governo, algo que vem ocorrendo desde 2003.''
A dependência das verbas públicas e a falta de apoio da sociedade civil refletiram-se na própria organização da Parada neste ano. Todo o dinheiro para a organização do evento veio dos cofres públicos (R$ 1,07 milhão). A maioria dos trios elétricos é de governo, sindicatos e ONGs. Empresários de casas noturnas paulistanas, que multiplicam o faturamento na semana da Parada, desta vez preferiram não abrir o bolso. André Almada, dono da The Week, marcou para hoje, no mesmo horário do evento, uma pool party. ''Talvez esse público não tenha o perfil de estar na Parada. Existe segmentação de mercado e, como empresário, estou atento. Não é uma afronta'', diz Almada. Por falta de recursos, a Associação da Parada Gay está com uma ordem de despejo e tem 30 dias para arrumar nova sede.