Sábado, 31 de Maio de 2008 | Versão Impressa
Linux busca espaço no computador de mesa
Rival do Windows tem hoje só 2% do mercado no País
Renato Cruz
"O Linux cresceu, mas não o suficiente para mudar sua participação na base instalada", disse Fernando Meirelles, professor da FGV e responsável pela pesquisa. "Não é a salvação da pátria." O sistema operacional é um software livre, que pode ser modificado, copiado e usado sem o pagamento de licenças. As empresas de Linux sobrevivem com a venda de serviços agregados ao software.
Para João Pereira da Silva Jr, presidente da Insigne, empresa brasileira que fornece Linux para fabricantes de PCs, o principal obstáculo não é a Microsoft. "Nós temos três inimigos: o vendedor mal-informado, o técnico mal-intencionado e o amigo que pensa que entende de computador", disse.
Segundo ele, o vendedor mal-intencionado diz ao consumidor que o Linux é difícil, e muitas vezes indica um técnico para substituir o software por uma versão pirateada do Windows. O técnico mal-intencionado chega a cobrar R$ 100 para trocar o Linux pelo Windows pirata. E o amigo que pensa que entende de informática, de acordo com Silva, estranha o Linux e troca o sistema operacional pelo Windows pirata, de graça.
Apesar de pequeno, o mercado de computadores com Linux começa a ficar interessante para as empresas. A Insigne acaba de comemorar 1,2 milhão de PCs vendidos com a sua distribuição de Linux, em oito anos de existência. Seiscentos mil foram vendidos nos últimos 12 meses. "Este ano, queremos chegar a 2 milhões", disse Silva. A empresa atende a sete fabricantes, que incluem Semp Toshiba, Novadata, Aiko e CCE. O software é de graça, mas a Insigne recebe do fabricante pelo suporte que oferece ao consumidor.
Quando o governo federal anunciou o programa Computador para Todos (na época, chamado PC Conectado), muitos previram um grande incentivo ao Linux no computador de mesa. Não aconteceu. O governo ofereceu condições especiais de financiamento para um modelo com Linux, mas o benefício fiscal serviu para toda a indústria, independentemente do sistema operacional.
Um dos argumentos usados contra o Linux é que as pessoas não estão acostumadas com ele e, por causa disso, têm dificuldade de usar. "Como o programa tem como objetivo a inclusão digital, essa desculpa vai para o espaço", afirmou Silva. "A maioria dos consumidores não tem experiência anterior com computador. Tem gente que liga para a central de atendimento reclamando que a internet não funciona, e nós temos de dar para eles a triste notícia de que precisam contratar banda larga e provedor."
A empresa chegou a criar um centro de capacitação para clientes, em São Paulo, em que oferece quatro horas de treinamento gratuito para quem compra computadores com seu software. "Estudamos abrir centros em outras cidades", disse Silva.
Quem também está de olho nesse mercado é a Canonical, responsável pela distribuição do Ubuntu. Criado pelo multimilionário e astronauta sul-africano Mark Shuttleworth, o Ubuntu tem como lema "Linux para seres humanos". Ou seja, o objetivo de Shuttleworth foi criar uma versão fácil de instalar e de usar, para tirar do Linux a imagem de sistema operacional para pessoas com conhecimento técnico.
"A visibilidade do Ubuntu no Brasil é maior que eu imaginava", disse Fábio Filho, gerente de Negócios da Canonical para a América Latina. "A engenharia das empresas já sabe que o Ubuntu é uma alternativa para o desktop, ainda falta mostrar isso para a linha executiva."
Fábio foi contratado há um ano, com dois objetivos principais: ampliar a presença do Ubuntu nas empresas e fechar acordos com fabricantes locais de computadores. Fora do Brasil, a Canonical tem acordo com empresas como a Dell, que vende computadores com o Ubuntu nos EUA, Índia e China.