Domingo, 08 de Junho de 2008 | Versão Impressa
PV pede a pré-candidatos ''pedágio'' de R$ 13.500
Cobrança foi feita de interessados em disputar vaga na Câmara Municipal
Silvia Amorim
A cobrança foi confirmada ao Estado por dois pré-candidatos. "Para mim, foi dito que o partido precisa custear a propaganda de televisão e rádio para os pré-candidatos, o que dá R$ 13.500 para cada um. Isso foi falado. Não há nada por escrito. E aí disseram que isso poderia ser feito através de filiações", conta o administrador de empresas Alexandre Hataka. "Essa foi uma idéia que eles deram para a gente fazer o levantamento da verba", confirma Sílvia Nogueira, também pré-candidata dos verdes.
O aviso foi feito aos pré-candidatos, individualmente, em reunião com o presidente municipal do PV, Carlos Camacho, entre abril e maio. A fórmula encontrada pelo PV para disfarçar a cobrança foi estipular aos interessados numa vaga de vereador uma cota de 300 novas filiações ao partido. Isso daria os R$ 13.500, já que cada filiado tem de pagar uma taxa de R$ 45 - valor da primeira anuidade.
Camacho nega a cobrança do "pedágio" e diz que a única "incumbência" dada aos pré-candidatos é trazer novos militantes ao partido. "É uma avaliação preliminar do potencial do pré-candidato", afirmou (leia texto abaixo).
Em 2002, o extinto Prona foi acusado de usar a venda de cartilhas no valor de R$ 5 mil para camuflar a comercialização de legenda para deputado estadual em São Paulo. O caso foi parar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas não houve punição. A Lei Eleitoral não enquadra como infração a solicitação de recursos de candidatos.
ANTECIPAÇÃO
O pagamento pelas supostas 300 filiações é feito pelo próprio pré-candidato e de forma antecipada, contou um outro aspirante ao Legislativo municipal pelos verdes, que preferiu não se identificar, por temer represálias. No momento de retirada das fichas de filiação, que devem ser preenchidas e devolvidas com os dados dos novos militantes, o pré-candidato tem de deixar um cheque ou comprovar um depósito bancário na conta do partido. O valor pode ser parcelado em até três vezes.
Em tese, se conseguir todas as filiações, ele acaba compensando o gasto. Mas não é o que acontece. "Não é porque uma pessoa vota em você que ela vai se filiar ao partido", disse Sílvia, que até hoje não pagou os seus R$ 13.500 ao partido. Ela disse que não tem o dinheiro e, sem esperança de conseguir as 300 filiações, teme não sair candidata. A convenção do PV está marcada para o dia 15.
DESISTÊNCIA
Hataka, que também questiona a cota de filiados, afirmou que pensa em desistir de concorrer às eleições. "Para não ficar aquela idéia de que pegou 300 fichas, sabe-se lá de onde veio o dinheiro. Como foi feito isso e o fato de as coisas não serem muito claras me fazem pensar em desistir."
A vinculação do pagamento à garantia da legenda, segundo eles, é sutil. "Isso não é dito, mas acho que é a percepção das pessoas. A minha percepção foi essa", diz Hataka.
Os dois pré-candidatos aparecem numa lista distribuída na reunião da Executiva Municipal do PV no último dia 27. Trata-se de um balanço de quem já quitou seu pagamento e de quem ainda está inadimplente.
O Estado teve acesso à planilha. Dos 77 pré-candidatos listados, 31% ainda não pagaram. A reportagem também recebeu cópia de um e-mail em que a coordenação do PV da zona leste cobra dos pré-candidatos da região que "acertem com o partido as parcelas das filiações até 30 de abril".
O PV tem hoje 3.812 filiados na capital, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Se a cota de 300 filiações por cada pré-candidato se confirmar, o partido verá sua militância crescer em 21 mil filiados até o fim da campanha eleitoral.