Quinta-Feira, 19 de Junho de 2008 | Versão Impressa
Petrobrás explorou óleo fora do prazo
Nicola Pamplona e Kelly Lima
Em outras concessões na mesma região, houve alteração no compromisso de perfuração de poços, também sem passar pelo crivo da diretoria do órgão.
A ANP justifica as mudanças afirmando que a descoberta do pré-sal criou um novo cenário no setor. Mas não comentou o fato de as decisões terem sido referendadas sem aprovação da diretoria. Seis especialistas ouvidos pelo Estado - que pediram para não ser identificados - destacaram a falta de transparência no processo.
Alguns afirmaram que as decisões da ANP ferem a Lei do Petróleo e abrem brechas para contestações judiciais que poderiam culminar com a devolução de parte das áreas. O caso mais emblemático é o de Júpiter, no bloco BM-S-24, anunciado em janeiro. A concessão foi arrematada na segunda rodada de licitações da ANP, em 2001, e dividida em três períodos exploratórios.
Ao fim do segundo, em setembro de 2007, a Petrobrás deveria ter perfurado dois poços e, se não achasse reservas, teria de devolver 75% da área original, de 2.788 quilômetros quadrados.
Não houve perfurações no prazo previsto: o primeiro poço no bloco foi concluído no dia 25 de janeiro de 2008, quando a estatal comunicou ao mercado a descoberta de um grande reservatório de gás natural. Também não houve devolução da área prevista no contrato.
Levantamento do Estado nas atas de reuniões de diretoria da ANP a partir de 2001 indica que não há qualquer autorização para prorrogação do prazo exploratório ou mudança do programa de poços na concessão.
Em mesma situação está o BM-S-21, também da terceira rodada de licitações, onde foi descoberto o projeto Caramba. O primeiro poço só foi concluído no início de dezembro de 2007, pouco mais de dois meses após o fim da segunda fase exploratória, que também previa a perfuração de dois poços. Assim como no BM-S-24, não há registro de autorização da ANP para mudanças no contrato.
Também concessionária do pré-sal, a Esso, por exemplo, obteve prorrogação por 18 meses do período exploratório do bloco BM-S-22 em reunião da diretoria. Em outras duas concessões da Petrobrás na região, onde foram descobertos os projetos Bem-Te-Vi e Carioca, houve alteração do plano exploratório sem aprovação da diretoria. A estatal afirmou apenas que "cumpre todas as exigências do órgão regulador em suas atividades", direcionando qualquer esclarecimento específico à ANP.