Domingo, 29 de Junho de 2008 | Versão Impressa
China já é o 2º maior mercado de luxo global
Crescente número de milionários turbina vendas de produtos caros
Cláudia Trevisan
A estimativa de diferentes consultorias é de que os chineses assumirão a liderança desse ranking em 2015, quando devem responder por algo entre 29% e 32% das vendas mundiais, com gastos próximos de US$ 24 bilhões. No ano passado, os habitantes do antigo Império do Meio desembolsaram US$ 8 bilhões em jóias, roupas, produtos de couro, acessórios e perfumes de grifes de luxo internacionais, o equivalente a 18% do mercado global, segundo a consultoria Li & Fung Group, com sede em Hong Kong.
Por trás dessa explosão está o rápido crescimento do poder de compra e do número de milionários no país governado pelo mais poderoso Partido Comunista do mundo. Com uma renda per capita de US$ 2,5 mil - comparada a US$ 6,9 mil no Brasil - a China está longe de ser um lugar rico. Mas a expansão econômica de quase dois dígitos ao ano das últimas três décadas levou ao surgimento de uma poderosa elite endinheirada e a um dramático aumento da desigualdade social.
No topo da pirâmide, a China já tem uma quantidade impressionante de abastados com cacife suficiente para se dar ao luxo de gastar com luxo. Segundo o Hurun Report, que traz a lista dos mais ricos do país, a China tinha no ano passado 106 bilionários, sete vezes mais que o total registrado em 2006. O número de milionários - com fortunas iguais ou superiores a US$ 1 milhão - chegava a 500 mil.
Quase todos que estão na lista são novos ricos, que construíram sua fortuna do zero, sem ajuda de herança ou patrimônio familiar. Como os outros novos ricos do mundo, os chineses também querem ostentar sua recém-adquirida prosperidade. "Itens de luxo que exibem marcas proeminentes, apesar de raramente venderem bem fora da China, em geral são os de mais sucesso no país", diz Francesca Lim, do Li & Fung Group.
A busca de status e identidade em um mundo em rápida transformação ajuda a explicar a paixão asiática por produtos de luxo, de acordo com o livro The Cult of the Luxury Brand (em tradução livre, Culto às Marcas de Luxo), de Radha Chadha e Paul Husband, lançado em 2006. "Na Ásia de hoje, você é o que você usa", escrevem.
Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que na China, país que vive uma reviravolta econômica sem paralelo na história, na qual milionários de hoje eram camponeses e operários duas décadas atrás.
Na quinta-feira, uma mulher que se identificou apenas com seu nome de família, Wu, passeava por lojas de grife no Shin Kong Place, um dos shoppings de luxo de Pequim. A tiracolo, uma enorme bolsa que trazia estampada a marca Chanel, pela qual disse ter pago US$ 5 mil. No pescoço e na mão, um delicado conjunto de colar e anel Bulgari, que saiu por US$ 2 mil.
Wu tem uma empresa do setor de transporte marítimo e fatura o equivalente a US$ 70 mil por mês, mais que suficiente para comprar produtos de grife e pagar pelos estudos do filho nos Estados Unidos - outro "luxo" comum entre os ricos chineses.
A poucos passos, as amigas Wendy e Dana saíam de uma loja Hugo Boss e se declararam consumidoras vorazes de grifes. "Vale a pena gastar tanto para ter marcas famosas?", perguntou a reportagem. Dana respondeu sem hesitar: "Claro! Elas realizam uma espécie de sonho, de ser mais bonita, mais confiante, mais sexy, mais bem sucedida".
Grande parte das compras é realizada em viagens ao exterior, em razão dos pesados impostos que recaem sobre bens supérfluos na China, que fazem com que os preços sejam de 20% 40% mais caros do que em Hong Kong, destino preferido dos consumidores locais.
A China ultrapassou o Japão em 2003 e se transformou na principal fonte de turistas de toda a Ásia. No ano passado, 41 milhões de pessoas cruzaram a fronteira em direção a outros países, e a Organização Mundial de Turismo estima que serão 100 milhões em 2015.
Em Paris, os chineses de hoje são o que os japoneses foram nos anos 80 e 90: ávidos compradores que invadem butiques de luxo e lojas de departamentos em busca de grifes reconhecidas. Nos locais duty-free da capital francesa, há vendedores que falam mandarim e cantonês, o dialeto do sul da China.
Mas, dentro do país, as compras também estão em alta e grifes de luxo brotam em shoppings na próspera costa leste e em longínquas cidades do interior. Caso de maior sucesso entre as marcas globais, a Louis Vuitton registra há anos crescimento médio de 50% de seu faturamento na China. A Gucci expandiu suas vendas em 65% em 2006 e, no quarto trimestre de 2007, deu um salto de 130%.
Em shoppings de Pequim e Xangai, é possível encontrar lado a lado todos os pesos pesados do luxo mundial, tais como: Chanel, Dior, Hugo Boss, Versace, Gucci, Prada e, claro, Louis Vuitton, que os chineses chamam de LV. A longínqua Urumqi, capital da província de Xinjiang, no extremo oeste, tem duas lojas Ermenegildo Zegna, duas Dunhill e uma Cerrutti 1881.