Quarta-Feira, 09 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Ingrid adia volta por temer ataque

Ela indica ter medo de que as Farc planejem vingança, citando outro ex-refém que tem sofrido ameaças na Colômbia

Paris

A ex-candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt admitiu ontem, na França, que a pedido de sua família desistiu de voltar rapidamente a seu país para participar de uma marcha pelo fim do conflito colombiano, por temer por sua segurança. "Estou preocupada pelo seguinte: antes da minha libertação, houve outras libertações, como a do (ex-senador) Luis Eladio Pérez", disse Ingrid ao Estado. "Ele me disse que está muito preocupado porque o estão ameaçando. Ele tem medo de que, para se vingar, a guerrilha se atenha a ele como alvo e pensa em deixar a Colômbia por alguns meses."

Logo após ser resgatada, no dia 2, após seis anos nas mãos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Ingrid havia anunciado que participaria em Bogotá "como mais um soldado" da marcha programada para o dia 20 com o objetivo de pedir a liberdade dos demais reféns da guerrilha. Agora, voltou atrás. "(A marcha) se presta muito para um atentado", diz. "Haverá muita gente e será difícil controlar a multidão. É preciso que sejamos prudentes."

Em entrevistas ontem, Pérez também falou das ameaças de morte feitas à sua família em Bogotá. Dos sete anos que ficou em cativeiro, ele passou quatro ao lado de Ingrid, com quem tentou fugir para o Brasil. "Recebemos nos últimos dias uma série de ameaças, que não sabemos exatamente de onde vêm, mas sem dúvida preocupam muito", afirmou Pérez, que vive em Bogotá sob escolta militar. Ele disse que as ameaças foram feitas por telefone e pessoas próximas às Farc o advertiram de que a guerrilha estaria "preparando algo" contra ele. "(Nossos carcereiros) pensavam que sairíamos intimidados ou apaixonados por eles", afirmou Pérez. "Não ocorreu nem um nem outro."

À tarde, mensagens de rádio gravadas por Ingrid começaram a ser transmitidas no sul da Colômbia para estimular integrantes da guerrilha a entregar as armas. "Ei, guerrilheiros, sou Ingrid Betancourt, quero que vocês também recuperem sua liberdade. Estou aqui esperando vocês", diz a ex-senadora.

O subsecretário de Estado americano para a América Latina, Thomas Shannon, disse em Bogotá que os EUA pedirão hoje a extradição de dois dirigentes guerrilheiros capturados durante o resgate de reféns no dia 2.

A pedido da Colômbia, a Organização dos Estados Americanos aprovou uma declaração com um apelo às Farc para que libertem, sem impor condições, todos os reféns. A OEA também pede à guerrilha que estabeleça um diálogo com as autoridades colombianas. Na segunda-feira, Bogotá anunciou que procurará um contato direto com as Farc.

Segundo a rádio RCN, o novo líder das Farc, Alfonso Cano, disse em seu primeiro comunicado, pouco antes da libertação de Ingrid, que o grupo estaria disposto a negociar. "Nossa proposta de encontrar-nos com o governo para estabelecer os termos de um acordo continua vigente", diz o texto, divulgado ontem. A RCN também anunciou que, no computador do líder guerrilheiro Raúl Reyes, morto em março, haveria indícios de que o governo francês teria pago resgate por Ingrid em 2003, numa tentativa frustrada de conseguir sua libertação.

ANDREI NETTO, COM AFP E EFE