Segunda-Feira, 14 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Esposas de candidatos mostram seus estilos

Em Michelle Obama e Cindy McCain, eleitores encontram perfis opostos

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON

Cindy sobe no palanque com seus cabelos impecáveis, linda, loura - e muda. Às vezes, fala uma ou duas frases para apresentar seu marido John McCain, o candidato republicano à presidência dos EUA, e logo se recolhe ao papel de coadjuvante de sorriso perfeito.

Michelle Obama entra em cena com seus quase dois metros de altura, roupas vistosas e braços audaciosamente nus. A mulher do candidato Barack Obama comanda sozinha comícios para 2 mil pessoas. Ela cumprimenta seu marido - e colega advogado - batendo com seu punho fechado no dele (o que é chamado por comentaristas de direita de cumprimento terrorista).

Não são apenas os candidatos presidenciais desta eleição que apresentam idéias e personalidades totalmente distintas. Os eleitores estão optando também por dois tipos de primeira-dama muito diferentes - a convencional e a independente.

Aos 54 anos, Cindy passa a imagem de primeira-dama tradicional, que fica quieta ao lado do marido e será essencialmente decorativa na Casa Branca. Já Michelle representa a primeira-dama com vida e profissão próprias, que pode assustar por sua independência e humor sofisticado.

"Os conservadores apóiam mulheres mais ?tradicionais?, que complementam os homens; elas podem ser socialites ou donas de casa, desde que não ameacem os maridos", disse ao Estado Georgia Duerst-Lahti, diretora do Centro de Estudos das Mulheres do Beloit College. "Já os liberais acreditam mais em uma igualdade entre os sexos - ou seja, é tão normal ter mulheres bem-sucedidas profissionalmente como ter homens lavando a roupa em casa."

Mas, no geral, o perfil de primeira-dama convencional ainda ganha em popularidade, acredita Georgia. "Ainda há muitas instituições e práticas culturais que dividem o mundo em papéis femininos e masculinos, então a vantagem ainda vai para a mulher mais submissa, a ?tradicional?, porque a modéstia é considerada ?feminina?", diz.

Segundo Georgia, Michelle, de 44 anos, é uma mulher forte e "pode ser facilmente estereotipada como uma mulher negra dominadora, revoltada, ameaçadora para os brancos".

O Partido Republicano já está mirando nessas potenciais vulnerabilidades da senhora Obama. Em fevereiro, Michelle fez o seguinte comentário infeliz: "Pela primeira vez em minha vida adulta, estou realmente orgulhosa de meu país."

Comentaristas conservadores não perderam tempo e passaram a tachar Michelle de antipatriótica. Outros veículos de direita retratam Michelle como amarga, revoltada, a "senhora injustiçada". Correm boatos na internet de que existiria um vídeo onde Michelle se refere aos brancos como "whitey", algo como "branquelos".

Hillary Clinton já tinha sido alvo de ataques desse tipo da direita - quando comentou que não tinha ficado em casa assando cookies.

Mas a campanha de Obama não está sentada tranqüilamente assistindo à demolição de Michelle. Os assessores do candidato formularam planos para aprimorar a imagem da potencial primeira-dama. Uma equipe foi contratada para amenizar seu humor corrosivo e torná-la mais "normal" aos olhos dos eleitores.

A Michelle Obama mais feijão-com-arroz estreou no programa feminino The View, uma espécie de "Saia-Justa" dos EUA, com altíssimo ibope e participação da humorista Whoopy Goldberg. No programa, ela revelou que adora bacon, não usa meia-calça porque é incômodo e falou sobre o sucesso de seus modelitos sem manga, da estilista Maria Pinto.

EQUILÍBRIO

"O segredo é achar um equilíbrio", diz o professor Ron Walters¸ diretor do centro de Liderança Afro-Americana da Universidade de Maryland. "A imagem das esposas dos presidente americanos começou a mudar com a ascensão das mulheres profissionais à Casa Branca - mas isso também foi a causa de boa parte das críticas recebidas por Hillary Clinton", completa.

Hillary e Bill Clinton chegaram a se vender como dois pelo preço de um. Mas isso despertou muita antipatia, e a campanha de Obama faz de tudo para não passar essa mensagem - não dizer que Michelle estará governando também.

Cindy McCain, em contrapartida, luta para se livrar da imagem exagerada de mulher que vive para o marido. Karen O''Connor, diretora do Instituto de Mulheres e Política da American University, lembra que Cindy ganha US$ 6 milhões por ano dirigindo um negócio e está envolvida em inúmeras instituições de caridade. "Ela nunca foi dona de casa", diz.