Sábado, 19 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Protógenes acusa comando da PF de obstruir investigação no caso Dantas
Delegado denuncia ao Ministério Público que foi afastado do inquérito e desmonta versão de que saiu porque quis
Fausto Macedo e Marcelo Godoy
A Operação Satiagraha, deflagrada dia 8, desarticulou o que a PF chama de "organização criminosa" , que teria no comando Daniel Dantas. Além do banqueiro, foram presos o investidor Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta e 15 dos outros 21 investigados. Só dois continuam presos. O esquema envolveria desvio de recursos públicos, corrupção, fraude, gestão fraudulenta de instituição financeira, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Ontem à noite, depois de enquadrar criminalmente Dantas, o delegado fez lacônica declaração. Anunciou o fim de sua participação no caso, com a entrega do relatório final do inquérito 120233-08. Ressalvou que sua manifestação atendia ordem do Palácio do Planalto: "Como servidor público da PF, uma das reservas morais desse País, e cumprindo determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em obediência à ordem dos meus superiores, apresento nessa data a nossa singela contribuição na condução da Operação Satiagraha, em especial no combate à corrupção."
Agradeceu a todos que o auxiliaram na campanha de 4 anos e citou os nomes, um a um, de juízes, procuradores, agentes, escrivães, peritos e delegados, entre eles o ex-diretor-geral da PF Paulo Lacerda, hoje chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que deu apoio crucial à Satiagraha. "Como cidadão deixo à História a lição democrática do saudoso Heráclito Fontoura Sobral Pinto: todo poder emana do povo e em seu nome ele é exercido", concluiu Protógenes.
O delegado levou sua denúncia à Procuradoria na tarde de quinta-feira, ao mesmo tempo em que a direção-geral da PF divulgava, em Brasília, diálogos selecionados do encontro que ele manteve com superiores na noite de segunda. A reunião ocorreu em São Paulo, na sede da corporação. A parte dos áudios liberada - menos de 3 minutos, de 2h30 de discussão - sugere que o delegado deixou o caso espontaneamente para fazer um curso de especialização. Mas não é o que agora ele alega.
Os procuradores Anamara Osório Silva e Rodrigo de Grandis pediram a abertura de procedimento administrativo de controle externo da atividade policial. A representação foi distribuída ao procurador da República Roberto Antonio Dassié Diana, coordenador do grupo de controle externo do MPF. Protógenes afirma ter sido afastado das investigações e queixa-se, principalmente, de falta de recursos humanos e materiais para a investigação.
Segundo o MPF, o diretor de Combate ao Crime Organizado da PF, Roberto Troncon, já se comprometeu a repassar a íntegra da gravação.
Diana anotou que a revelação de Protógenes aponta fatos sigilosos da Satiagraha. O procurador não quis se manifestar se há crime a ser investigado. "Vou verificar desde possível falta administrativa até crime."
A direção da PF não se manifestou sobre a denúncia. Limitou-se a informar que coloca-se à disposição da Procuradoria.