Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Dicke, que não curtia café com gosto de querosene

Morto na quarta, dia 9, escritor mato-grossense deixou uma extensa e fértil obra de romance, conto, poesia e teatro

Jotabê Medeiros

Às 10 horas da quarta-feira, dia 9, morria no Hospital São Matheus, em Cuiabá, o escritor Ricardo Guilherme Dicke, aos 71 anos. O mato-grossense Dicke era um mito da literatura nacional que passou a vida numa espécie de ponto cego das estantes. Pouca gente o leu, mas em compensação (se é que isso é uma compensação) muita gente de qualidade o leu: Glauber Rocha, Hilda Hilst (que o comparou a Machado), Luiz Ruffato.

Nem em casa ele teve o devido reconhecimento. Em abril, o escritor Ignácio de Loyola Brandão foi a Cuiabá e procurou algum livro de Dicke. "Encontrei apenas um exemplar, o último de uma edição local de Deus de Caim, premiado no Walmap em 1967, um dos maiores prêmios literários da época. O romance que derrotou o meu Bebel Que a Cidade Comeu, que concorria também", escreveu em sua coluna no Estado.

Dicke publicara Deus de Caim, seu primeiro romance, havia mais de 40 anos. Um ano depois, em 1967, ele recebia menção honrosa no concurso de literatura, uma distinção que lhe dava um júri que incluía Jorge Amado e Guimarães Rosa.

"O que o sr. acha do atual momento da política?", perguntou o Estado a Dicke em 2006. "Acho que o povo está demais parado, quieto, mudo, ninguém diz nada, parece que as vozes discordantes se desfizeram e ninguém reclama de nada. Exceto lá do lado dos países árabes, onde se multiplicam os carros-bomba e os camicases islâmicos", respondeu o autor.

Seu currículo não era, entretanto, o de um misantropo, um exilado por vocação, como se vê por essa descrição: "Nascido em 16 de outubro de 1936, formou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1971. Em 1972 , licenciou-se em Filosofia, pela Faculdade de Educação também da UFRJ. Fez especialização em Heidegger e o Problema do Absoluto e Fenomenologia de Merleau-Ponty e ainda freqüentou a Escola Superior de Museologia. Trabalhou como professor, tradutor e jornalista para várias editoras e jornais de grande circulação no Rio de Janeiro e Cuiabá. Foi revisor e copydesk em várias editoras e especialmente entre 1973 e 1975 no jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Como artista plástico estudou pintura e desenho, entre 1967 e 1969 com Frank Scheffer e entre 1969 e 1971, com Ivan Serpa e Iberê Camargo. Estudou Cinema no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro".

Publicou os romances Deus de Caim, Como o Silêncio, Caieira, A Chave do Abismo, Madona dos Páramos, O Último Horizonte, Cerimônias do Esquecimento, Conjuctio Opositorium no Grande Sertão (tese de mestrado em Filosofia na UFRJ), O Salário dos Poetas, Rio Abaixo dos Vaqueiros, Toada do Esquecido e Sinfonia Eqüestre, entre outros - também teve extensa produção de contos, teatro e poesia. Um dos seus romances, O Salário dos Poetas, foi levado aos palcos de Lisboa em 2005.

Mas é certo que Dicke não gostava do ritmo feérico das grandes cidades, nunca gostou. Um personagem de um dos seus últimos livros, A Toada do Esquecido, diz, a certa altura: "Mas não penses que nas cidades é diferente: lá a galinha tem gosto de papel, o café gosto de querosene, o cigarro gosto de trapo queimado e a música tem gosto de serra serrando madeira."

Seu livro, cujos personagens da história A Toada do Esquecido vagam por uma floresta queimada, revela sua angústia diante da destruição ambiental. "Meu Estado, Mato Grosso, é uma vítima dos ignorantes que queimam as matas, e quando chega agosto, que é a época mais quente do ano, viram campos de fogo e a devastação da natureza corre solta, e eu, com meu coração de ambientalista, sinto uma enorme tristeza, chego a pensar que a natureza está acabando e tudo isso é irredutível."

Como José Agrippino de Paula, tinha uma leitura visual quase cinematográfica dos símbolos da sociedade de consumo. Construía a história a partir de personagens quase estilizados. "O sol vai esquentando a terra de tocos queimados. Ergue-se no céu e os homens ainda dormem como mortos. O primeiro que acorda é O Cavaleiro e fica a olhar os colegas adormecidos. Depois é El Diablo, o papagaio enrosca as patas torcidas nas reentrâncias de suas orelhas sobre a máscara de cornos vermelhos, dobra a cabeça de olhos fechados como amêndoas que se cerram e solta um murmúrio rachado com um som de taquara que se quebra. Grande silêncio que grassa. Um a um, despertam-se ao sol que esquenta. Restam-se silenciosos ante os carvões apagados do fogão, passa um avião alto entre as nuvens. O Cavaleiro tira o revólver, dá um tiro em sua direção:

- Olhem lá os livres. Quem está mais livre? Nós ou eles?

- Cuidado com os tiros. Podem ouvir - diz El Diablo."

Há uma citação que Glauber Rocha teria feito sobre o autor no antigo programa de TV Abertura: "Ricardo Guilherme Dicke é o maior escritor vivo do Brasil e ninguém lê, ninguém conhece!" É triste.