Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa
''Na minha cabeça, o filme era meu''
ENCONTROS com o ESTADÃO - Rejeitado seis vezes, Thiago Martins, de 19 anos, é o protagonista de Era Uma Vez
O filme conta uma love story entre um menino morador do Morro do Cantagalo e uma garota da zona sul. Poderia ser mais uma versão de Romeu e Julieta, mas definitivamente não é. Os personagens são chocantemente realistas, sem pieguices. A preocupação em não cair nos estereótipos, aliás, foi a prioridade do diretor e dos artistas, abrindo a possibilidade de Silveira repetir seu sucesso de 2 Filhos de Francisco.
Soube que você brigou muito para fazer o papel em Era Uma Vez... Como foi isso? O Breno (Silveira, diretor) queria um ator negro que não fosse conhecido. E eu tinha acabado de fazer uma novela das oito. Resolvi fazer o teste assim mesmo e ele me recusou. Tentei de novo. Nova recusa. Ele repetia, "não é você". Mas eu sou virginiano e não desisti. Já que ele queria um ator negro, o que não sou, fui tomar sol no Leblon, mudei o cabelo, deixei a barba por fazer.
Ele recusou você seis vezes, como é que conseguiu voltar? Porque ele fez teste com o Brasil inteiro. E não encontrava ninguém, pedia para me chamarem de novo. Tomei sol e pensei: vou chegar lá queimado e ele vai ter de me aceitar. Na torcida estava Patrícia Andrade, a roteirista, e Ciça Castelo, a produtora de elenco. O fato é que quando entro numa guerra, não entro para perder. Aprendi isso com a minha mãe. Na minha cabeça, esse filme era meu.
Você faz parte de um grupo de teatro da Favela do Vidigal, o Nós do Morro. Isso ajudou-o a ter mais garra? Olha, no nosso grupo, a gente luta contra os estereótipos. O cinema brasileiro já explora demais histórias de bandidos, policiais e traficantes. Na favela existem criminosos? Claro que sim, mas são 10%. Ninguém mostra os outros 90%, que são trabalhadores correndo atrás de um futuro melhor. Eu queria uma história que mostrasse um trabalhador de verdade. A favela do jeito que ela é: com o tráfico de drogas ao fundo. Contando uma linda história de amor. Eu vim à Terra para fazer esse filme. Ser um porta-voz do Vidigal.
De quem foi a idéia do Nós do Morro? Do Gute Fraga. Há 22 anos, ele veio de Goiânia para o Vidigal e, com o incentivo de Marília Pêra, levou adiante o projeto de montar um grupo de teatro no morro.
Você tem 19 anos e está no grupo há 14. Isto é, você começou no Nós do Morro com 5 anos? É. (risos) Entrei por intermédio do meu irmão mais velho, Carlos André, que é um ídolo para mim. Ele fazia parte do grupo e eu e minha mãe íamos sempre assistir às peças. Um dia, eu disse que também queria fazer teatro e meu irmão aceitou, mas lembrou que para ser ator era preciso três coisas: determinação, responsabilidade e interesse. Virei o menino de ouro do Gute. A grande qualidade do Nós do Morro é que, depois de aluno, nós nos tornamos multiplicadores.
Hoje você ensina? Ensino, mas como estou trabalhando muito fora do grupo, quase não tenho tempo para dar aulas. Mas estou sempre lá ajudando.
Quem sustenta o Nós do Morro? Quantos alunos tem? Há seis anos é patrocinado pela Petrobrás. Antes disso, era na garra mesmo. Tem 400 alunos. Com aulas de interpretação, história do teatro, história do cinema, capoeira, percussão, cenografia.
Você nasceu no Vidigal? O que viu mudar nesses 19 anos? O maior trunfo do Vidigal é o Nós do Morro. As pessoas que fazem teatro são muito bem-vistas dentro da comunidade. As coisas pioraram não só na favela. Mas em todo o Rio. A violência aumentou. Atualmente, existem pessoas diferentes no morro. A maioria nordestinos imigrantes, antes não tinha muita gente de fora do Rio.
Quantas escolas tem? No Vidigal, temos três escolas municipais e uma particular, posto de saúde e seis creches.
Você não tem medo de morar lá? Não. Tenho pai, mãe, irmão. Todo mundo se conhece e se respeita, sabe quem é quem e o que faz pelo Vidigal.
Ter nascido e ter sido criado no Vidigal ajudou ou atrapalhou na hora de interpretar o papel do Dé? Claro que ajudou, e não só a mim. Ajudei a Patrícia e o Breno também. Querendo ou não eu vivo lá dentro e sei como é. Não é minha biografia, pelo contrário, eu nunca peguei em uma arma ou em drogas. Mas tive de observar, pesquisar, para evitar cair em estereótipos. Eu emprestei a minha alma para esse personagem.
Vocês filmaram no Morro do Cantagalo. Foi complicado filmar num morro diferente do seu? Foi tranqüilo, apesar dos problemas: muitas pessoas subindo e descendo, câmeras, etc. A produção fez um acordo com a comunidade do Cantagalo.
Você é novo, mas já pensou em fazer política? Vou votar pela primeira vez nas próximas eleições. Acho que pegar a palavra política para fazer o bem para as comunidades é a solução. Mas nunca pensei em fazer política no sentido literal. Sou ator e, apesar de achar que uma pessoa não muda o mundo, pode mudar uma outra pessoa e assim por diante. Eu escuto muito o Legião Urbana e eles dizem que o Brasil vai ser o país do futuro. Eu espero isso.
Você tem religião? Acredito em Deus. Cantei muito tempo em coral de igreja evangélica, mas também sou devoto de São Jorge.
Você nota alguma diferença entre a periferia do Rio e de São Paulo? O Rio é diferente de São Paulo. No Leblon, Ipanema e Copacabana tem morro. E na praia junta todo mundo: rico e pobre. Em São Paulo é mais complicado, porque não tem um lugar onde todo mundo se junta. Negros, brancos, favelados e burgueses. A principal característica desse filme é quebrar esses muros que existem aí.
Como você foi parar na Globo? Os olheiros da Globo sempre me chamavam para fazer testes, mas nunca passava porque era muito novo. Quando fiz 15 anos, passei no teste da novela Da Cor do Pecado. Penso que entrar é fácil, difícil é se manter na Globo. Eu sou contratado até 2009. É prazeroso, é uma vitrine incrível, a Globo é a Globo. Mas tiro o chapéu para outras emissoras que estão começando a trabalhar com dramaturgia no Brasil. Record, Band, SBT estão abrindo o mercado para os atores.
Você pensa em continuar fazendo teatro? Claro, o contato direto com o público é insubstituível. O improviso é uma coisa de maluco, uma coisa mágica. Um palhaço triste que vira um rei, uma princesa, uma rainha, um presépio. Num filme, você demora um dia para fazer uma cena: é uma magia diferente.
Conte-me uma pouco da sua família? Somos eu, meu irmão e minha mãe, que eu defino como um São Jorge, porque ela sempre lutou contra muitos dragões. Conseguiu sustentar nós dois com muita dignidade. Sempre nos mostrou de forma muito clara o que é certo e o que é errado. Hoje, ela está proibida de trabalhar, já fez muito pela gente. É a hora de fazermos por ela. Meu pai é um taxista que só agora é um pai presente.
Como você se vê daqui a dez anos? Quero continuar trabalhando dignamente com arte, ajudando minha família. Não tenho ansiedade com o futuro, confio em Deus.
Qual o seu próximo projeto? Estou no novo longa que a Tizuka Yamasaki está rodando, Amazônia Caruana. Viajo no dia 4 de outubro para participar das filmagens.
Você se veste e se desveste o personagem com facilidade? Na verdade, a gente sempre carrega um pouco de um personagem para outro. Esse vai ser um desafio, é um personagem meio do mato, meio folclórico. Mas, como faço capoeira, vai ser mais fácil.