Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa

O centenário de Machado por seus maiores especialistas

Edição especial dos Cadernos de Literatura Brasileira reúne Antonio Candido, Alfredo Bosi e John Gledson, entre outros

Antonio Gonçalves Filho

O crítico literário Antonio Candido, que completa 90 anos na quinta-feira, é um dos grandes especialistas na obra de Machado de Assis, ao lado do norte-americano John Gledson e do crítico Alfredo Bosi, que participam da edição dupla (números 23 e 24) dos Cadernos de Literatura Brasileira dedicada ao centenário de morte do autor de Dom Casmurro. O volume, publicado pelo Instituto Moreira Salles, tem 384 páginas e já está à venda por R$ 95 nas principais livrarias e pelo site do IMS. Ele foi lançado durante a 6ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada no início do mês, e teve como consultores o professor de literatura Hélio de Seixas Guimarães e o jornalista Vladimir Sachetta.

O número comemorativo dedicado a Machado não apenas discute a herança literária do escritor, ao propor um balanço crítico das correntes teóricas nascidas em torno de sua obra. Ele traz novas leituras de contos ainda insuficientemente estudados, como A Parasita Azul, de 1872, produzido, portanto, no mesmo período em que foi lançado o primeiro romance do escritor, Ressurreição. Gledson começa seu ensaio citando dois grandes romancistas estrangeiros , a inglesa Jane Austen e o norte-americano Henry James, que, segundo o ensaísta, têm profundas afinidades com Machado. Como James, o brasileiro teria encontrado enorme dificuldade em se ajustar a seu meio, defende Gledson, por saber que a vida intelectual no Brasil "era estreita e muitas vezes imitativa".

Gledson, a exemplo de outros críticos, é de opinião que Machado só encontrou sua verdadeira voz uma década depois de Ressurreição, com Memórias Póstumas de Brás Cubas. No entanto, o conto A Parasita Azul já traz, segundo o crítico americano, as marcas da experimentação formal do ousado livro de Machado, a despeito do enredo simples que Gledson descreve como uma versão da parábola do filho pródigo e até mesmo como um cruzamento híbrido entre o texto bíblico e a história da Bela Adormecida. O conto de Machado fala do filho de um comendador de Goiás que é mandado pelo pai para estudar medicina em Paris e acaba se apaixonando por uma prostituta, gastando com ela a mesada que recebe, até voltar ao Brasil e reencontrar uma antiga paixão da juventude.

Ao contrário da história do filho pródigo, a de Machado não admite "conversão ou arrependimento". Gledson argumenta que Camilo, o moço irresponsável que vai para Paris, continua assim até o final, garantindo que o conto seja concluído sem a moral das parábolas bíblicas ou dos contos de fada. E não é esse o único traço moderno de A Parasita Azul, que antecipa, num "eco premonitório", a história de Brás Cubas - igualmente envolvido com prostitutas e gastando a fortuna dos pais na Europa.

O crítico Alfredo Bosi lembra esse primeiro romance em primeira pessoa de Machado (Memórias Póstumas de Brás Cubas) para comentar o procedimento auto-reflexivo do autor ao registrar as mudanças de discurso de Brás enquanto vivo e depois de morto, trocando o narrador onisciente pela "rede arriscada da intersubjetividade". Para Bosi, um livro como Dom Casmurro é também o romance "em que o narrador afirma que só o exercício da memória permite a reconstrução do próprio eu, ou, em suas palavras, a sua essência". Ou seja, a identidade de Bentinho só seria acessível à memória, à auto-análise. Bosi critica, portanto, a mania contemporânea de enxergar Bentinho como um homem reacionário, preconceituoso e autoritário, poupando Capitu por sua "modernidade".

E, aos que acusam Machado de não dar muita importância à descrição da paisagem brasileira - e até mesmo de tornar a natureza ausente de sua obra -, o professor Antonio Candido lembra as palavras de seu professor de sociologia Roger Bastide, que, em 1940, ao escrever um ensaio sobre o Machado paisagista, partindo das artes plásticas para chegar à análise literária, mostrou que as cores do Brasil bem poderiam estar sugeridas nas roupas de seus personagens. Em Machado, a natureza, segundo Candido, "não é descrita, mas fundida em todas a dimensões do universo ficcional, inclusive como substância das metáforas".

O senso comum também consagrou outra definição, a de Machado como um escritor urbano, que o contemporâneo Cristóvão Tezza, professor da Universidade Federal do Paraná, trata de discutir em seu ensaio. Para Tezza, o espaço objetivo, caro aos românticos e aos realistas, transforma-se em "impressão do olhar" em Machado - e isso não traduz uma limitação, mas uma revolução, segundo o professor e escritor. Ele teria sido o primeiro, entre nós, a "perceber o esvaziamento da função descritiva da literatura moderna", diz Tezza, lembrando que, apesar de Machado falar de um Rio que não existe mais, acompanhamos passo a passo, "vividamente", a peregrinação de seus personagens e seus mapas mentais da cidade. Já a "roça" pode estar ausente da obra de Machado, mas está presente na crítica impiedosa que faz ao provincianismo e à estreiteza mental de alguns brasileiros. "No mundo de Machado, a roça é um castigo", resume Tezza. A edição especial do IMS traz ainda um ensaio fotográfico de Edu Simões dos espaços públicos antigos citados nos romances de Machado e cartas do escritor carioca.