Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Uma ode à tragédia da existência

Ventos de Quaresma, do cubano Leonardo Padura Fuentes, conduz o leitor a refletir sobre a vida

Fabiano Calixto

Para o filósofo alemão Martin Heidegger, a vida cotidiana do homem (uma forma de existência inautêntica) é composta por três aspectos que a fundamentam: a facticidade, a existencialidade e a ruína. Na primeira, o homem é apenas atirado ao mundo, sem lhe ter sido feita qualquer consulta; na segunda, o ser está na dianteira de si mesmo e enfrenta a situação de tornar-se aquilo que almeja, na procura de algo que o eleve além de sua pateticidade inata, algo que lhe proporcione uma conjuntura menos infernal neste mundo; no terceiro é onde, desviado, o indivíduo é engolido pelas necessidades cotidianas, sacrificando, assim, sua própria personalidade, que se perde entre a massa, e isso, além de tirar a atenção que deveria ser destinada à busca de si mesmo, o torna um ser vegetativo, aplacado por idéias e sentimentos alheios e lapidados, e, por fim, o torna exausto da própria existência.

Mario Conde, personagem dessa fabulosa novela policial chamada Ventos de Quaresma (Companhia das Letras, 232 págs., R$ 38, tradução de Rosa Freire d?Aguiar) do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes, é um sujeito que ilustra bem as idéias heideggerianas. A Cuba de 1989 é trespassada pelos ventos que carregam poeira, solidão e mistério por suas ruas simples e escuras, pelas peles das pessoas também simples, por tudo. Essa Cuba é onde ocorre um estranho assassinato para cuja investigação os serviços do detetive são convocados. O protagonista é um sujeito que sabe, mesmo vindo do submundo, apreciar a beleza, possui "um sentido recôndito de bicho amestrado" que "sempre guiava seus olhos para a figura de mulher mais bonita do lugar, como se a busca da beleza fizesse parte de suas exigências vitais", mas de nada adianta saber a morada de tal encanto, pois o wild side era seu hábitat. Um homem que "(...) tinha nascido num bairro muito violento e muito briguento, onde era proibido arriar, mesmo um instante, as bandeiras da virilidade, sob a pena de ficar sem bandeira, sem virilidade e até mesmo sem o pau da bandeira" e que, sob a desconfortável camada de pó do tempo, era "um garoto que queria ser escritor" e sonhava com essa idéia diariamente. Personagem de si mesmo, atravessando o céu sem estrelas desta existência imunda, restava-lhe acender um cigarro e esperar a mulher com a qual iria fazer sexo e se embriagar.

Há momentos extremamente dolorosos no trabalho, como a "porrada" verbal que Andrés aplica em seu amigo Magro Carlos (outro personagem ótimo), que tenta convencer a todos de que está tudo bem. Isso ocorre num desses encontros comuns de amigos, que pode acontecer em qualquer lugar do mundo, onde a nostalgia tenta destilar alguma espécie mórbida de tinta que pinte as máscaras do fracasso. Andrés em tom duro e lúcido contabiliza os escombros da geração respondendo a Magro Carlos, que tentava convencê-lo das virtudes de um passado feliz. Essa era a juventude que, no cursinho "por três anos, daria guarida aos sonhos e às esperanças daquela geração oculta que quis ser tantas coisas que jamais conseguiria ser". Nada tão comum e tão desalentador.

Conde não é um personagem comum e se em certo momento pede desculpas por estar vivo, condena sua existência medíocre com um brinde a todos os sonhos possíveis - aqueles que jamais se concretizarão. A violência, a corrupção, a degradação total, no fim das contas, tanto faz. Em suas palavras: "Tudo se enegrece com o tempo, como a cidade por onde caminho, entre pórticos sujos, depósitos de lixo petrificados, paredes descascadas até o osso, bueiros transbordando como rios nascidos nos próprios infernos e sacadas desvalidas, sustentadas por muletas. No final somos parecidos, a cidade que me escolheu e o escolhido, eu: morremos um pouco, todo dia, de morte longa e prematura, feita de pequenas feridas, dores que crescem, tumores que progridem..."

A prosa de Leonardo Padura Fuentes é extremamente bem escrita, atingindo níveis de beleza raros nestes dias de "prosica qualquer coisa" que se comete em cada esquina deste mundo-cão. O vento, um dos personagens principais da obra, chega quase sempre como um mote para que a prosa de Fuentes dê saltos poéticos, escalando suas próprias barreiras sintáticas (que talvez o estilo exija) na busca, antes de tudo, de uma laboriosa harmonia construtiva.

Ventos de Quaresma, por meio da figura cativante do detetive Mario Conde, é uma ode à desilusão da trajetória humana (frustrada, solitária, embriagada) e, da tragédia da existência, o que sobra é a amizade, a bondade, a missão de não deixar faltar a ninguém a ilusão de companhia.

Em tempos de empobrecimento cultural, vindo de todos os lados, enganando uns, entediando outros, nada melhor que se debruçar na leitura deste livro, bem escrito, bem pensado, que, de alguma maneira, nos mostra que a literatura policial pode ser mais que meros crimes, que pode nos levar a refletir sobre a vida, pagando-lhe pesada fiança para que, enfim, não nos sintamos tão sós.

Fabiano Calixto, poeta, é autor de Sangüínea (Editora 34)