Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Encontrou em Roger Bastide um modelo

Entre Candido e o professor francês houve uma afinidade eletiva imediata

Walnice Nogueira Galvão

Antonio Candido fez os estudos superiores em condições especiais: numa escola pública, sob os cuidados de professores franceses, participando de minúsculas turmas, na recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Estudante de Ciências Sociais, formar-se numa das primeiras turmas e ser discípulo desses mestres definiria sua vida e sua carreira. Não é só o seu caso, mas o de todo o grupo da revista Clima, fundada por colegas da faculdade em 1941, que conformaria as vocações de Paulo Emílio Salles Gomes para o cinema, Decio de Almeida Prado para o teatro, Gilda de Moraes Rocha (depois Mello e Souza) para a estética, Lourival Gomes Machado para as artes plásticas, Ruy Coelho para a antropologia; e do próprio Antonio Candido, que aí iniciou sua trajetória de crítico literário.

Nosso País tem um déficit em ensino superior, porque enquanto países do lado hispânico como o México e o Peru tiveram universidades desde o primeiro século da colônia, nós esperaríamos o século 20 pelo mesmo privilégio. Só em 1934 seria fundada em São Paulo nossa universidade, graças sobretudo ao empenho de Julio Mesquita, que por ela fez campanha nas páginas de seu jornal, e a seu cunhado Armando de Salles Oliveira, interventor em todo o estado, nomeado por Getúlio Vargas.

Vários desses professores europeus afirmaram que nunca lhes passara pela cabeça vir parar no Brasil, país sobre o qual nada sabiam. Mas isso definiu não só as vidas e as carreiras de seus discípulos: as deles também. Dois exemplos apenas, mas significativos, são Roger Bastide, que se especializaria nas religiões afro-brasileiras, tornando-se autoridade inconteste, e Claude Lévi-Strauss, que desenvolveria sua obra sobre a mitologia indígena.

Com a colaboração do professor George Dumas, um francês que estava constantemente por aqui, foram selecionados apenas jovens professores do secundário, ainda sem títulos, mas promissores. Os escolhidos se distribuíam assim: franceses para as humanidades (filosofia, literatura, sociologia, antropologia, política, história, geografia), italianos para as ciências físicas e as matemáticas, alemães para as ciências naturais. Entre os italianos e os alemães, muitos judeus, entre os franceses só Claude Lévi-Strauss. Em meados dos anos 30 o fascismo e o nazismo estavam em ascensão e a perseguição começava a se acirrar na Europa. Hitler chegou ao poder em 1933.

O objetivo dessa fundação era criar um centro de estudos de ciência pura e não aplicada. Para as aplicadas, já tínhamos faculdades de Medicina, de Direito, a Politécnica, etc., que davam formação profissional e portanto cuidavam da aplicação dos saberes. Mas nos faltava uma que ensinasse filosofia, sociologia, zoologia, botânica, genética, física, química - tudo isso sem adjetivação, ou seja, que não fossem no interesse de qualquer profissão e que se dedicassem à pesquisa pura. Havia, por exemplo, filosofia e sociologia do Direito, química para a Medicina, etc. A faculdade foi concebida como a cabeça de algo que ainda não existia e que foi fundado conjuntamente com ela, reunindo as faculdades profissionais já existentes, reunião que se chamaria Universidade de São Paulo. E aqui estamos.

Tal era a importância que se atribuía a essa faculdade e o propósito de que fosse renovadora, que as autoridades decidiram não contratar professores locais. Esperava-se, importando jovens professores da Europa, que eles trouxessem na bagagem as últimas novidades do saber. Sem dúvida é de se admirar o critério adotado, o de escolher quem ainda não tinha nenhum título, sendo apenas, pelos critérios franceses, Agrégés e professores de liceu, isto é, do secundário. O importante é que fossem promissores - o que depois se comprovaria, com larga margem.

Desses pioneiros que nos interessam, além dos já citados, vale lembrar ainda o futuro historiador Fernand Braudel, o professor da cadeira de Política Paul Arbousse-Bastide e o geógrafo Pierre Monbeig, que manteve os laços com o Brasil mesmo após seu regresso. Algo em comum a esses professores era que insistiam em que seus alunos conhecessem o Brasil e fizessem pesquisa de campo. O resultado foi o que se viu.

De tais mestres, aquele que mais influenciou Antonio Candido foi Roger Bastide, que aqui permaneceu dezesseis anos (1938-1954), a partir de uma espécie de "afinidade eletiva" instantânea. Ele, pessoalmente, era um homem afável e cortês, não chegado a falar mal dos outros, e sempre acolhedor para os alunos e os colegas. Seu apelido na faculdade era carinhoso, o diminutivo Bastidinho, pois era baixinho, por contraste com Paul Arbousse-Bastide - alto, corpulento e com voz de trovão - a quem cabia o aumentativo Bastidão. Ele, realmente, era muito amado por toda parte aonde fosse, e Antonio Candido registrou versinhos falando dele nos cantadores populares, que recolheu em 1946-7 na região de Piracicaba: "E se encontrar Roger Bastide/Faz-lhe minha saudação./ Tenho visto gente boa/ Tenho visto gente fino,/Como aquele hominho, não!"

As qualidades de integração de Bastide patenteiam-se quando se percorre sua bibliografia. Assim que chegou, já começou a participar da vida intelectual e cultural brasileira, escrevendo abundantes artigos sobre o Brasil, a mestiçagem, a poesia, a música, a pintura, etc., para jornais e revistas. Um número tão elevado reflete o quanto o novo país e o novo ambiente estimulavam seu pensamento. E a que ponto se integrou, passando a ser considerado como um nativo.

Logo estava entabulando polêmicas amáveis com as principais cabeças do País, e especialmente de São Paulo, onde residia. A cidade tinha sido a sede da Semana de Arte Moderna em 1922. Os principais modernistas aqui viviam e eram eles que davam as cartas no panorama das artes brasileiras. Bastide logo se ligou por amizade com a figura de proa do modernismo, o teórico e crítico, musicólogo, poeta, contista e romancista Mário de Andrade. Trocaram artigos pelos jornais, discutindo alguns dos temas centrais de uma cultura mestiça e de país novo.

Assim, Bastide tornou-se crítico literário, artístico e cultural respeitado e empenhado. Escrevia sobre exposições, sobre artistas plásticos, sobre o Aleijadinho, sobre culinária, sobre o cafuné, sobre poetas novos e antigos, sobre música, sobre folclore e festas populares; e produziu uma análise sociológica do mercado municipal. Seus textos sobre poesia negra no Brasil foram depois reunidos no livro A Poesia Afro-Brasileira, e, entre nós, foram estudos pioneiros. Os alunos participavam dos trabalhos do mestre, pois tinham por obrigação seguir sua liderança, sendo levados em grupo para fazer pesquisa de campo nesses setores.

Além de escrever sua tese de doutoramento As Religiões Africanas no Brasil, nos anos 50, Bastide foi encarregado pela Unesco de estudar o preconceito racial no País, no qual, aparentemente, ele não existia. Tais preocupações da Unesco advinham, naturalmente, do nazismo, que inaugurou na História o racismo por assim dizer aplicado em escala industrial. Bastide associou-se então ao jovem Florestan Fernandes, seu aluno e assistente, e que viria a ser o maior sociólogo que o Brasil já conheceu. A meta era realizar uma pesquisa empírica nos mais importantes centros urbanos do país. Ou seja, nem mais religião, nem escravidão, mas o negro hoje, como se insere no sistema de classes da sociedade capitalista. Entre os alunos que participaram da pesquisa, e que viriam a produzir teses e livros sobre o negro, figuravam Otavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso, que por sua vez seriam assistentes de Florestan Fernandes.

Como se viu, alguns de nossos mais importantes intelectuais foram discípulos de Roger Bastide, o qual, de muitas maneiras, viria a tornar-se para nós um maître-à-penser. Antonio Candido já testemunhou ser tamanha a influência recebida, ao ponto de encontrar idéias que acreditava dele mesmo em textos esquecidos do mestre.

Walnice Nogueira Galvão é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, autora, entre outros, de
As Musas sob Assédio