Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Mudança vital nos rumos da cultura brasileira
O Suplemento Literário, editado pelo Estado e criado por Candido, continua como referência na divulgação e debate de idéias
Ubiratan Brasil
"Naquela época, São Paulo não tinha a densidade cultural do Rio", comentou Antonio Candido, em uma entrevista de 2006. "O SL foi uma tentativa de fundir o tom de jornal com o de revista." Mas o momento era propício - o suplemento chegou para reforçar a fase de desenvolvimento cultural de São Paulo, iniciada com a criação da Universidade de São Paulo e seguida de uma efervescência musical (especialmente no trabalho desenvolvido por Mario de Andrade à frente do Departamento de Cultura), teatral (o fortalecimento do TBC), cinematográfica (o predomínio das produções da Vera Cruz) e artística (a criação dos Museus de Arte de São Paulo e de Arte Moderna) vivida na cidade.
"No Rio, concentrava-se o mais vivo da literatura e das artes. Não valeria a pena, portanto, pensar uma fórmula ?de movimento?, como a que caracterizava, por exemplo, o famoso suplemento do Jornal do Brasil", comentou Candido. "A maior contribuição de São Paulo era a cultura universitária, mas não havia aqui revistas culturais importantes, nem na USP nem fora dela. Sendo assim, era recomendável tentar uma espécie de equilíbrio entre o movimento vivo da literatura e das artes e a tonalidade mais estável dos estudos universitários. O SL foi uma tentativa de associar as duas dimensões de maneira criativa e acessível, fundindo o tom de jornal com o tom de revista."
Ao apresentar a primeira edição do Suplemento Literário, o crítico teatral Décio de Almeida Prado, que o dirigiu até 1967, lembrou os leitores que a natureza do novo caderno seria literária e, portanto, artística. "Uma publicação como a nossa define-se menos, talvez, pelo que é do que pelo que deseja ser", escreveu ele, na introdução. "Importa, assim, antes de mais nada, conhecer as idéias que estão atrás da realização."
Almeida Prado, aliás, foi o primeiro diretor do SL por conta da recusa de Antonio Candido em assumir o comando, mesmo com todo conhecimento que tinha do suplemento. Afinal, dois anos antes, em 1954, a direção do Estado pediu a Candido que indicasse um grupo de colaboradores para uma série de artigos sobre a cidade para celebrar o 4º Centenário de São Paulo. Ele, assim, tornava-se naturalmente um candidato à chefia do SL. Candido, porém, preferiu indicar Almeida Prado.
Além da USP, outro ponto de partida para a definição editorial do suplemento foi a Clima, revista editada por um grupo de jovens intelectuais paulistas que logo seriam incorporados à equipe de colaboradores, como Sábato Magaldi, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Alberto Soares de Almeida, além dos próprios Antonio Candido e Décio de Almeida Prado.
A diagramação, austera e inovadora, foi concebida por Italo Bianchi, artista italiano formado em artes gráficas e plásticas, nome sugerido pela crítica Gilda de Mello e Souza. Ele buscou uma visualidade muito cuidada, que não contrastasse com a austeridade do jornal.
O Suplemento abria espaço para a colaboração de autores consagrados, como Guimarães Rosa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, como dos que estavam surgindo, como João Antônio, os poetas Geir Campos e Carlos Nejar, além do crítico Roberto Schwarz. Lançou nomes de importância fundamental na difusão da literatura estrangeira, como o crítico Anatol Rosenfeld e Leyla Perrone-Moisés, que publicou nas páginas do suplemento os primeiros textos sobre a vanguarda literária francesa (Robbe-Grillet, por exemplo).