Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Uma lógica saxônica para o Brasil
Em Fragmentos de Memória, o ex-ministro da Fazenda Karlos Rischbieter fala de projeto que reordene a economia nacional
Leonardo Trevisan
O engenheiro Rischbieter tinha uma longa história de "planejar desenvolvimento" no Paraná, e chegou a ministro da Fazenda pelas mãos de Mário Henrique Simonsen. É curioso, mas os "setenta meses de Brasília" não são o prato principal de sua história. O ponto forte do Fragmentos de Memória (Travessa dos Editores, 260 págs., R$ 30) é a visão de mundo do neto de imigrante sobre a construção do Brasil. Há uma "lógica saxônica", que se adapta e aprende, mas não se dilui, inclusive no exercício do poder. A descrição de como se "começava a vida" nos anos 1950 são reveladoras das dificuldades de acomodar essa lógica com a dinâmica realidade brasileira. Foi essa lógica que construiu, por exemplo, a constatação de Rischbieter de que cursar a Faculdade de Engenharia em Curitiba em nada o ajudou na vida profissional. Os anos de escola foram definidos como "um enorme desperdício de tempo". Ele completou a formação na França e na Alemanha.
Na volta, foi trabalhar na Companhia de Desenvolvimento do Paraná (Codepar). Na primeira vez que ele encontrou com Delfim Neto, este foi comunicar a Codepar qual cidade do Estado seria escolhida como pólo industrial, mas o encontro terminou mal com uma frase dura de Rischbieter sobre "os paulistas". Ele reconhece que meses mais tarde reencontrou Delfim, desculpou-se e recebeu como resposta: "É isso mesmo, tem que vestir a camisa." O caminho de Rischbieter até Brasília começou com o Instituto Brasileiro do Café, experiência internacional essencial para a futura função no Banco de Desenvolvimento do Paraná. A função foi um meio caminho para a Presidência da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, então rota natural até a Fazenda.
O período no ministério começa em março de 1979. A inflação bateu em 6%, quando Figueiredo chegou ao Planalto. A conciliação tentada entre desenvolvimentistas e monetaristas para gerir a política econômica era uma estranha interpretação do pacto de Moncloa, a conciliação espanhola entre direita e esquerda, entre empresários e sindicatos, pós-Franco. A conciliação brasileira não durou seis meses: em julho, para garantir a supersafra que Delfim exigia, Mário Henrique Simonsen abriu créditos com alto risco de mais inflação. Em 10 de agosto, Simonsen deixou o Planejamento e três dias depois o ministro da Fazenda enviou a Figueiredo o documento Abertura Política e Crise Econômica propondo novo "contrato social", um acordo tácito de reduzir inflação, preservar desenvolvimento e solucionar o desequilíbrio na balança de comércio. Desde então, o ex-ministro reconheceu: era questão de tempo sair do governo.
Ele conta que no último fim de semana na pasta da Fazenda conversou longamente com o então sindicalista Lula, encontro feito "a pedido de Golbery". O ex-ministro da Fazenda diz que sempre elogia Lula por ter "atuado aberto" e que por isso "provavelmente salvou o Brasil de uma tragédia". Longe de Brasília, Rischbieter optou por trabalhar em Conselhos de Administração de várias empresas. Rischbieter insiste que o Brasil precisa de um projeto que reforme e reordene o setor moderno da economia, incorpore o setor não moderno e adote políticas de tecnologias para o Brasil pós-industrial. Uma dúvida, uma receita bem ao gosto de sua lógica saxônica. Resta saber que parcela do Brasil a seguiria.