Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa

''Não imagino uma vida de leitor sem releituras''

Rodrigo Lacerda - ESCRITOR

Nascido em 1969, o carioca Rodrigo Lacerda estreou com O Mistério do Leão Rampante (Ateliê, 1995), recebendo o Jabuti. Depois, publicou A Dinâmica das Larvas (Nova Fronteira, 1996), Fábulas Para o Ano 2000 (Ateliê, 1998), Tripé (Ateliê, 1999), Vista do Rio (Cosac Naify, 2004). O infanto-juvenil O Fazedor de Velhos (Cosac Naify), sua última obra, chegou às livrarias no mês passado. Na entrevista a seguir, Rodrigo Lacerda revela as suas principais referências, como Shakespeare, Eça de Queirós e João Antônio.

Que livro você mais relê?

Hamlet, de Shakespeare. É daquelas obras que têm de tudo, além da mais pura poesia dramática. Não consigo imaginar a vida de leitor sem releituras. Sou muito grato aos meus escritores preferidos.

Diga um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.

O Poderoso Chefão, do Mario Puzo. Soa muito intelectual dizer que o filme é uma obra de arte e o romance, um best-seller menor. Acho preconceito.

Cite um livro que frustrou suas expectativas.

Eneida, de Virgílio, me decepcionou. Em matéria de épico, acho Ilíada e Odisséia muito mais poderosas, e tinha-as em mente quando li Eneida, durante a pesquisa para o meu romance Vista do Rio, no qual um dos personagens era um professor de cultura latina.

E um livro surpreendente, pelo qual você não dava nada.

O americano Raymond Carver me pegou desprevenido. O primeiro livro que li dele era uma antologia de contos. Não esperava que as histórias me surpreendessem tanto.

A literatura está cheia de cenas marcantes. Cite uma.

Só para não parecer que esnobei a Eneida. Uma cena impressionante é aquela na qual os troianos estão decidindo se abrem ou não os portões da cidade para o Cavalo de Tróia. Cassandra avisa que abrir não é boa idéia, mas todo mundo quer. Laocoonte é o único que concorda com Cassandra, mas, antes que possa mudar a decisão da maioria, uma serpente marinha surge das águas e devora ele e os filhos.

Que personagens ganham vida própria na sua imaginação de leitor?

Para citar dois: Carlos Eduardo da Maia e João da Ega. A amizade deles, em Os Maias, do Eça de Queirós, é dos sentimentos mais palpáveis que tive a oportunidade de experimentar por meio da literatura.

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?

As duas histórias do Palmeiras Selvagens, de William Faulkner, entrelaçadas embora sem relação direta entre si, conseguiram me transmitir a "poesia bruta" do autor, que tem uma solenidade impressionante, trágica e meio bíblica, sendo ao mesmo tempo aplicável à nossa vida cotidiana. O resultado dessa combinação é deliciosamente perturbador.

Que livro mais o fez pensar?

Malagueta, Perus e Bacanaço, do João Antônio. Escrevi uma tese de 500 páginas praticamente só sobre ele.

De qual autor você leu tudo?

Eça de Queirós e Shakespeare. O Eça pelo humor, pela generosidade que tem em relação aos personagens e aos leitores, e pelo amor à música da literatura. William Shakespeare pelo talento poético e pelo gênio dramático, isto é, a capacidade de construir a cena na medida para que os personagens, psicologicamente falando, saiam de um ponto e cheguem aonde ele quer.

Existe algum autor com o qual você jamais perderia tempo?

Aquele que não leva a sério o próprio trabalho.

Você considera a literatura policial um gênero menor?

Não acredito que haja uma hierarquia rígida entre os gêneros. Por outro lado não posso dizer que seja um aficionado por literatura policial. Da minha preferência eu citaria As Oito Pancadas do Relógio, do Maurice Leblanc, criador do Ladrão de Casaca.

Os livros de auto-ajuda são mesmo ruins, ou isso é puro preconceito?

Um dos livros mais lindos que já li é, de certa forma, de auto-ajuda: as Meditações, de Marco Aurélio. Se você ler aquilo sem reverência excessiva, verá que não está tão distante. E quem sabe Confissões, de Santo Agostinho, também não sejam?

Um livro meio chato, mas bom.

Don Juan, do Byron. Excessivamente longo, perde a graça. Por outro lado, a poesia é boa e certas passagens são divertidas. Totalmente chato não dá para dizer que seja.

Um livro difícil, mas indispensável.

Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa.

Um livro que começa muito bem e se perde.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago. Adoro o livro, mas fiquei com a impressão de que a história se acelera demais nas últimas páginas.

Um livro ruim, por ser pretensioso.

O Animal Agonizante, do Philip Roth. Achei o protagonista um tipinho bem cafajeste. Pode ser mérito do escritor, mas é difícil não deixar isso contaminar o livro todo.

Um livro pior do que o filme baseado nele.

Coração das Trevas, do Joseph Conrad, que é excelente, claro, mas o filme Apocalipse Now, do Francis Ford Coppola, é coisa de outro mundo.

De que livro você mudaria o final? Por quê?

De Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Eu nunca mataria a namorada do D?Artagnan. Com toda a certeza eu mudaria para pior, mas o coração falaria mais alto que a excelência literária.

Que livros contrariam suas convicções mas ainda assim você julga imprescindíveis?

O Novo Testamento.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e um exemplo de boa tradução.

Algumas traduções fazem do Shakespeare um autor empolado, o que ele não era. Um modelo de tradutor é o Paulo Henriques Britto, que traduziu O Som e a Fúria, do Faulkner, um trabalho quase milagroso.

Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria a honraria de clássico?

Prefiro citar autores perfeitamente dignos de muito clássico por aí: Cristóvão Tezza, Milton Hatoum, Rubens Figueiredo, Bernardo Ajzenberg, Ronaldo Correia de Brito e Paulo Rodrigues por À Margem da Linha, que já nasceu clássico.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando a leitura?

O Tempo e o Vento, do gaúcho Erico Verissimo. Acho que se fala pouco dessa catedral literária maravilhosa.

Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?

Não que eu defenda sua eliminação dos cânones, mas eu estaria moralmente impedido de votar neles: Finnegans Wake, do Joyce, e A Paixão Segundo G.H., da Clarice Lispector. Nesses a minha leitura empacou, acho que para sempre, pois já tentei mais de uma vez. O sempre ausente que eu admiro é o Afrânio Peixoto, escritor muito interessante.

Que livro festejado pela crítica você detestou?

Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez.

E de que livro demolido por críticos você gostou?

Retrato do Artista Quando Velho, do Joseph Heller. Acho que só eu gostei desse livro no Brasil. Mas eu gostei muito.

Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?

Julian Barnes, Paul Auster e Michel Houellebecq.

Cite um vício literário que você considera abominável.

Citar obras de arte de modo a que o leitor se sinta um ignorante por não conhecê-las.

Que virtude mais preza na boa literatura?

A generosidade em relação aos personagens, aceitando-os como são e deixando-os seguir o seu curso.



Galeria
Eça de Queirós: ele tem amor à música da literatura.

Philip Roth: é ruim o livro O Animal Agonizante






- Iminência...

- Você quer dizer "eminência".

- O quê?

- Você disse "iminência". O certo é "eminência".

- Perdão. Sou um servo, um réptil, um nada. Uma sujeira no seu sapato de cetim. Mas sei o que digo. E eu quis dizer "iminência".

- Mas está errado! O tratamento certo é "eminência".

- Não duvido da sua eminência, monsenhor, mas o senhor também é iminente. Uma iminência eminente. Ou uma eminência iminente.

- Em que sentido?

- No sentido filosófico.

- Você tem dois minutos para se explicar, antes que eu o excomungue.

- Somos todos iminentes, monsenhor. Vivemos num eterno devir, sempre às vésperas de alguma coisa, nem que seja só o próximo segundo. Na iminência do que virá, seja o almoço ou a morte. À beira do nosso futuro como de um precipício. A iminência é o nosso estado natural. Pois o que somos nós, todos nós, se não expectativas?

- Você, então, se acha igual a mim?

- Nesse sentido, sim. Somos co-iminentes.

- Com uma diferença. Eu estou na iminência de mandar açoitá-lo por insolência, e você está na iminência de apanhar.

- O senhor tem esse direito hierárquico. Faz parte da sua eminência.

- Admita que você queria dizer "eminência" e disse "iminência". E recorreu à filosofia para esconder o erro.

- Só a iminência do açoite me leva a admitir que errei. Se bem que...

- Se bem quê?

- Perdão. Sou um verme, uma meleca, menos que nada. Um cisco no seu santo olho, monsenhor. Mas é tão pequena a diferença entre um "e" e um "i" que o protesto de vossa eminência soa como prepotência. Eminência, iminência, que diferença faz uma letra?

- Ah, é? Ah, é? Uma letra pode mudar tudo. Um emigrante não é um imigrante.

- É um emigrante quando sai de um país e um imigrante quando chega em outro, mas é a mesma pessoa.

- Pois então? Muitas vezes a distância entre um "e" e um "i" pode ser um oceano. E garanto que você terá muitos problemas na vida se não souber diferenciar um ônus de um ânus.

- Isso são conjunturas.

- Você quer dizer "conjeturas''

- Não, conjunturas.

- Não é "conjeturas" no sentido de especulações, suposições, hipóteses?

- Não. "Conjunturas" no sentido de situações, momentos históricos.

- Você queria dizer "conjeturas" mas se enganou. Admita.

- Eu disse exatamente o que queria dizer, monsenhor.

- Você errou.

- Não errei, iminência.

- Eminência! Eminência!

PULO

(Da série Poesia Numa Hora Destas?!)

Pessoa

Parapeito

Pula não pula

Pula!

Plaft

no chão.

Passante:

Que sorte!

O poema é concreto

mas o chão, não.



Perdão. Sou um

servo, um réptil, um nada. Mas sei o que

digo. E eu quis dizer ?iminência?||



Sou um verme, um cisco no seu santo olho, monsenhor. Mas é tão pequena a diferença entre um ?e? e um ?i?||









antologia

pessoal



Rodrigo

Lacerda



ESCRITOR

"Não imagino uma vida

de leitor sem releituras"



Nascido em 1969, o carioca Rodrigo Lacerda estreou com O Mistério do Leão Rampante (Ateliê, 1995), recebendo o Jabuti. Depois, publicou A Dinâmica das Larvas (Nova Fronteira, 1996), Fábulas Para o Ano 2000 (Ateliê, 1998), Tripé (Ateliê, 1999), Vista do Rio (Cosac Naify, 2004). O infanto-juvenil O Fazedor de Velhos (Cosac Naify), sua última obra, chegou às livrarias no mês passado. Na entrevista a seguir, Rodrigo Lacerda revela as suas principais referências, como Shakespeare, Eça de Queirós e João Antônio.

Que livro você mais relê?

Hamlet, de Shakespeare. É daquelas obras que têm de tudo, além da mais pura poesia dramática. Não consigo imaginar a vida de leitor sem releituras. Sou muito grato aos meus escritores preferidos.

Diga um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.

O Poderoso Chefão, do Mario Puzo. Soa muito intelectual dizer que o filme é uma obra de arte e o romance, um best-seller menor. Acho preconceito.

Cite um livro que frustrou suas expectativas.

Eneida, de Virgílio, me decepcionou. Em matéria de épico, acho Ilíada e Odisséia muito mais poderosas, e tinha-as em mente quando li Eneida, durante a pesquisa para o meu romance Vista do Rio, no qual um dos personagens era um professor de cultura latina.

E um livro surpreendente, pelo qual você não dava nada.

O americano Raymond Carver me pegou desprevenido. O primeiro livro que li dele era uma antologia de contos. Não esperava que as histórias me surpreendessem tanto.

A literatura está cheia de cenas marcantes. Cite uma.

Só para não parecer que esnobei a Eneida. Uma cena impressionante é aquela na qual os troianos estão decidindo se abrem ou não os portões da cidade para o Cavalo de Tróia. Cassandra avisa que abrir não é boa idéia, mas todo mundo quer. Laocoonte é o único que concorda com Cassandra, mas, antes que possa mudar a decisão da maioria, uma serpente marinha surge das águas e devora ele e os filhos.

Que personagens ganham vida própria na sua imaginação de leitor?

Para citar dois: Carlos Eduardo da Maia e João da Ega. A amizade deles, em Os Maias, do Eça de Queirós, é dos sentimentos mais palpáveis que tive a oportunidade de experimentar por meio da literatura.

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?

As duas histórias do Palmeiras Selvagens, de William Faulkner, entrelaçadas embora sem relação direta entre si, conseguiram me transmitir a "poesia bruta" do autor, que tem uma solenidade impressionante, trágica e meio bíblica, sendo ao mesmo tempo aplicável à nossa vida cotidiana. O resultado dessa combinação é deliciosamente perturbador.

Que livro mais o fez pensar?

Malagueta, Perus e Bacanaço, do João Antônio. Escrevi uma tese de 500 páginas praticamente só sobre ele.

De qual autor você leu tudo?

Eça de Queirós e Shakespeare. O Eça pelo humor, pela generosidade que tem em relação aos personagens e aos leitores, e pelo amor à música da literatura. William Shakespeare pelo talento poético e pelo gênio dramático, isto é, a capacidade de construir a cena na medida para que os personagens, psicologicamente falando, saiam de um ponto e cheguem aonde ele quer.

Existe algum autor com o qual você jamais perderia tempo?

Aquele que não leva a sério o próprio trabalho.

Você considera a literatura policial um gênero menor?

Não acredito que haja uma hierarquia rígida entre os gêneros. Por outro lado não posso dizer que seja um aficionado por literatura policial. Da minha preferência eu citaria As Oito Pancadas do Relógio, do Maurice Leblanc, criador do Ladrão de Casaca.

Os livros de auto-ajuda são mesmo ruins, ou isso é puro preconceito?

Um dos livros mais lindos que já li é, de certa forma, de auto-ajuda: as Meditações, de Marco Aurélio. Se você ler aquilo sem reverência excessiva, verá que não está tão distante. E quem sabe Confissões, de Santo Agostinho, também não sejam?

Um livro meio chato, mas bom.

Don Juan, do Byron. Excessivamente longo, perde a graça. Por outro lado, a poesia é boa e certas passagens são divertidas. Totalmente chato não dá para dizer que seja.

Um livro difícil, mas indispensável.

Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa.

Um livro que começa muito bem e se perde.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago. Adoro o livro, mas fiquei com a impressão de que a história se acelera demais nas últimas páginas.

Um livro ruim, por ser pretensioso.

O Animal Agonizante, do Philip Roth. Achei o protagonista um tipinho bem cafajeste. Pode ser mérito do escritor, mas é difícil não deixar isso contaminar o livro todo.

Um livro pior do que o filme baseado nele.

Coração das Trevas, do Joseph Conrad, que é excelente, claro, mas o filme Apocalipse Now, do Francis Ford Coppola, é coisa de outro mundo.

De que livro você mudaria o final? Por quê?

De Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Eu nunca mataria a namorada do D?Artagnan. Com toda a certeza eu mudaria para pior, mas o coração falaria mais alto que a excelência literária.

Que livros contrariam suas convicções mas ainda assim você julga imprescindíveis?

O Novo Testamento.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e um exemplo de boa tradução.

Algumas traduções fazem do Shakespeare um autor empolado, o que ele não era. Um modelo de tradutor é o Paulo Henriques Britto, que traduziu O Som e a Fúria, do Faulkner, um trabalho quase milagroso.

Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria a honraria de clássico?

Prefiro citar autores perfeitamente dignos de muito clássico por aí: Cristóvão Tezza, Milton Hatoum, Rubens Figueiredo, Bernardo Ajzenberg, Ronaldo Correia de Brito e Paulo Rodrigues por À Margem da Linha, que já nasceu clássico.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando a leitura?

O Tempo e o Vento, do gaúcho Erico Verissimo. Acho que se fala pouco dessa catedral literária maravilhosa.

Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?

Não que eu defenda sua eliminação dos cânones, mas eu estaria moralmente impedido de votar neles: Finnegans Wake, do Joyce, e A Paixão Segundo G.H., da Clarice Lispector. Nesses a minha leitura empacou, acho que para sempre, pois já tentei mais de uma vez. O sempre ausente que eu admiro é o Afrânio Peixoto, escritor muito interessante.

Que livro festejado pela crítica você detestou?

Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez.

E de que livro demolido por críticos você gostou?

Retrato do Artista Quando Velho, do Joseph Heller. Acho que só eu gostei desse livro no Brasil. Mas eu gostei muito.

Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?

Julian Barnes, Paul Auster e Michel Houellebecq.

Cite um vício literário que você considera abominável.

Citar obras de arte de modo a que o leitor se sinta um ignorante por não conhecê-las.

Que virtude mais preza na boa literatura?

A generosidade em relação aos personagens, aceitando-os como são e deixando-os seguir o seu curso.





Galeria

Eça de Queirós: ele tem amor à música da literatura.



Philip Roth: é ruim o livro

O Animal Agonizante