Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Genialidade e controvérsia em Goya

Após revisão de autoria de obra-chave, mestre espanhol do século 18 é objeto de intenso debate técnico

Jotabê Medeiros, MADRI

Durante três meses, a obra de Goya seqüestrou os olhares e os corações das pessoas que fizeram longas filas no Museo del Prado, em Madri, para a exposição Goya en Tiempos de Guerra, a maior reunião de obras do artista espanhol já havida no planeta: mais de 200 obras do pintor, muitas delas expostas pela primeira vez, vindas de coleções e museus do mundo todo, num esforço para cobrir 25 anos de produção do artista.

Decorridos 90 dias de exposição, o saldo agora é um debate que se passa inteiramente no campo de batalha da razão. Experts na obra do gênio espanhol da pintura estão debatendo furiosamente questões éticas e técnicas na divulgação de autoria em seu trabalho.

O causador de tudo isso foi uma tela chamada O Colosso. Depois de reluzir no Prado durante sete décadas como obra indiscutível do mestre, a tela foi "rebaixada", no dia 26 de junho, por Manuela Mena Marqués, conservadora de pintura do século 18 da pinacoteca do Prado. Não era um Goya, atestou o museu, mas uma obra de seu único e destacado discípulo, Asensio Julià - a notação que havia num dos cantos do quadro foi indicada como sendo as iniciais do nome do verdadeiro autor, AJ, mas para outros trata-se de um número, 18, que seria referência à tela Um Gigante, constante do inventário que se fez em 1812 após a morte de Josefa Bayeu, mulher de Goya.

A divulgação internacional de que uma pintura tão destacada não fosse de fato um Goya acabou por dar um novo sentido ao nome da exposição, Goya em Tempos de Guerra. Nunca foi tão forte no cenário museológico internacional a batalha das atribuições artísticas e os argumentos que as sustentam.

"A questão da atribuição é uma das mais debatidas que hoje se dão em relação à obra de Goya", disse a curadora e estudiosa Juliet Wilson-Bareau, em texto que integra o próprio catálogo da exposição do Museu do Prado. "Segue havendo muitos poucos dados sobre seu modo de trabalhar, seus hábitos de oficina e inclusive a localização desta nas distintas etapas de sua carreira. Sabemos bastante acerca da ajuda que lhe prestou Augustín Esteve, sobretudo na hora de repetir retratos. Porém, dado que a obra do próprio Esteve não passou até agora por um estudo técnico sério, nem foi objeto de uma exposição recente, e dada sua estreita colaboração com Goya nas décadas de 1780 e 1790, é inevitável que certo número de pinturas, principalmente retratos, resultem ser finalmente suas, e não do mestre."

Essa sinceridade aberta nunca foi expressa de forma tão escancarada até os dias da mostra Goya em Tempos de Guerra. A própria Juliet Wilson-Bareau encarregou-se de derrubar outra autoria de uma obra de Goya, La Lechera de Burdeos.

Isso despertou reações indignadas de outros especialistas, como o britânico Nigel Glendinning, uma das autoridades máximas na obra de Goya (leia entrevista abaixo). Segundo o expert, os estudos sobre Goya, a partir de agora, estão numa "situação embaraçosa" por conta da forma como esse debate está sendo conduzido.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, Arturo Ansón, professor de História da Arte na Universidade de Zaragoza e expert em paleografia, também torceu o nariz para o gesto do Museu do Prado. "Sou tremendamente cético. Não digo que todos os Goyas que temos catalogados vão à missa, mas se há dúvidas, por que não convocam mesas de trabalho?", questionou. Antonio Meléndez, museólogo do centro Ibercaja Camón Aznar de Zaragoza, que abriga uma das melhores coleções de Goya, fez coro com os descontentes. "Os especialistas do Museu do Prado seguiram um caminho incorreto: divulgaram antes de dispor de estudos científicos."

A controvérsia pode se acentuar nos próximos capítulos. O Museu do Prado prepara agora um estudo radiológico, documental e histórico-artístico das 14 obras conhecidas como As Pinturas Negras, atribuídas a Goya e sobre as quais pairam suspeitas. São afrescos pintados nas paredes de sua casa de campo na Quinta del Sordo. A curadora do Prado, Manuela Mena, no entanto, adianta que as pinturas têm "uma imaginação própria de Goya".

Questões espinhosas de autoria de obras de arte históricas não são um privilégio exclusivo de países com acervos mais ricos e variados, como os europeus. O Brasil viveu e vive esse confronto com o levantamento de obras caras à história do País, como os catálogos raisonnés de Jean-Baptiste Debret e Frans Post, elaborados sob a edição e supervisão do livreiro Pedro Corrêa do Lago, que também é representado no Brasil da casa de leilões Sotheby?s.

Corrêa do Lago montou um comitê de avaliação técnica para elaborar seus catálogos. O caso de Debret foi rumoroso: só os Museus Castro Maya, do Rio de Janeiro, tiveram 42 Debrets "rebaixados". Atribuições equivocadas também foram encontradas em coleções privadas. O Masp teve um óleo sobre tela, Índios Atravessando Um Riacho (O Caçador de Escravos), apontado pelo estudo como de autoria de outro artista, Augustin Brunias (1730-1796).

O historiador Glendinning diz que não conhece os trabalhos conduzidos no Brasil acerca dessas obras. "Mas há óbvio perigo potencial em questões de autenticidade quando estas são conduzidas por aqueles ativamente envolvidos no mercado de artes, possivelmente com algum tipo de desdobramento financeiro no futuro", afirmou. "Todavia, a expertise de estudiosos que trabalham para leilões merece geralmente amplo respeito, e se eles publicam suas opiniões em seu próprio nome eles podem sempre serem desafiados por outros estudiosos."