Domingo, 20 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Restaurador ''inventou'' passagens de pinturas, diz expert

Entrevista - Nigel Glendinning: historiador de arte; especialista renomado na arte do período de Goya, professor britânico diz também que comunicação de falsa autoria foi afoita

Um dos mais respeitados especialistas do mundo em pintura e cultura espanholas, o historiador de arte britânico Nigel Glendinning foi um dos especialistas que mais desagrado demonstraram com o "rebaixamento" da pintura intitulada O Colosso. Glendinning falou com exclusividade ao Estado:

Qual é a maneira correta de se apresentar conclusões sobre uma pintura histórica, quando há dúvidas sobre sua autoria ou autenticidade?

A prova que conduza a novas conclusões sobre autoria de pinturas precisa primeiro ser publicada em uma publicação especializada, para que estudiosos possam comentar detalhadamente as teorias. É inábil qualquer museu, em meu ponto de vista, anunciar suas conclusões primeiro para a imprensa, e assim para o público em geral, antes de suas teorias terem sido testadas por outros especialistas. Os estudos sobre Goya estão nessa situação embaraçosa precisamente porque dois estudiosos-chave têm dado coletivas sobre suas dúvidas em vez de publicar artigos sobre elas.

No caso de O Colosso, de Goya, o Museu do Prado fez a coisa certa?

Acho que o Prado mudou de idéia sobre a divulgação de informação a respeito de suas dúvidas sobre a autenticidade de El Coloso. O museu originalmente planejava publicar suas conclusões no Boletín del Museo del Prado, e eles foram gentis o bastante para me dar conhecimento de suas intenções. Eu disse a ele que eu precisava ser convencido, e que eles precisariam checar o inventário numérico que eu acredito era visível no lado esquerdo das fotografias da pintura reproduzidos em duas publicações nos anos 40 e 50, das quais eu dei a eles detalhes precisos, e deveriam também, em minha opinião, procurar por referências mais antigas da pintura contidas num inventário de Madri, em 1874, o qual o Prado não parecia conhecer até surgir em uma de suas publicações, com o título de Una Alegoría profética de las desgracias que ocurrieron en la Guerra de la Independencia (original de Goya, medindo 1,15 m por 1,3 m, e dada como de propriedade dos marqueses de Perales y Tolosa em Madri, em 1874). A pessoa que deu essa pintura, e outras, ao Prado em 1930 era um descendente da família aristocrática em questão, muito conhecida por suas coleções de arte dos séculos 18 e 19. Goya também pintara o retrato de um dos marqueses de Tolosa, hoje no Banco de España. O Prado presumivelmente convocou uma coletiva de imprensa quando a autoria do Colosso foi abertamente discutida por Manuela Mena e José Luis Díez em um encontro de especialistas de Goya, ao qual eu não pude ir, no dia 23 de junho, no qual explicaram as bases de suas dúvidas e uma possível atribuição a Asensio Juliá.

Há uma nova discussão agora em torno da autenticidade das Pinturas Negras de Goya.

Não é surpresa, porque as pinturas em questão foram removidas de paredes de dois quartos da casa de campo de Goya, nos arredores de Madri, durante um duplo processo de transferência em 1870, ocasião nos quais a superfície da pintura foi muito afetada por rachaduras nas paredes, e algumas perdas de pintura claramente ocorreram. Fotografias antigas mostram que o restaurador "inventou" passagens em algumas pinturas que tinham sido danificadas, então não há maneira de dizer que as pinturas são puro Goya. Por outro lado, as teorias que mostram que a Quinta del Sordo foi um local de estocagem, com sótãos, e que não havia quarto superior no primeiro andar no tempo de Goya parecem ter sido baseadas em uma leitura equivocada de documentos relevantes. Pessoalmente, eu não tenho dúvida de que as Pinturas Negras são todas obras autênticas de Goya, embora danificadas e modificadas em alguns detalhes pelo restaurador do século 19.