Quarta-Feira, 23 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Deputado estadual é preso e acusado de chefiar milícia no Rio

Natalino Guimarães (DEM) foi detido com mais quatro pessoas em sua casa; várias armas foram apreendidas

Talita Figueiredo e Felipe Werneck, RIO

O deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM), de 52 anos, foi preso em flagrante dentro de sua casa, em Campo Grande, na zona oeste do Rio, na madrugada de ontem. Ele é acusado de chefiar naquele momento uma reunião da "Liga da Justiça", grupo de milicianos que comandaria com o irmão, o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB), preso desde dezembro, acusado de formação de quadrilha.

Das pessoas que estavam na casa de Natalino, sete fugiram após troca de tiros, segundo a Polícia Civil, e cinco foram presas - entre elas o parlamentar. Horas antes, policiais haviam prendido no mesmo bairro outro acusado de integrar o bando. A operação foi toda acompanhada por telefone pelo chefe da Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro.

A ação policial começou por volta das 23 horas de segunda-feira com um cerco de 30 homens da 35ª Delegacia de Polícia e da Coordenação de Operações Especiais (Core) à casa do deputado. A intenção da polícia, que sabia das reuniões semanais do grupo há dois meses, era manter a casa cercada e obter um mandado judicial ao amanhecer. Quando alguns homens tentaram fugir pelos fundos, houve troca de tiros. Um deles, Fábio Pereira de Oliveira, o Fabinho Gordo, de 34 anos, que seria segurança do parlamentar, foi atingido na mão esquerda. Ele tinha mandado de prisão expedido por homicídio e estava foragido.

Dentro da casa foram apreendidos um fuzil, duas escopetas, uma submetralhadora, seis pistolas, três revólveres, três facas, munições de vários calibres e uma lista com nomes de "prestadores de serviço" da milícia. Ao lado de cada nome, segundo o delegado, aparecia o valor pago por semana, que variava entre R$ 300 e R$ 1,7 mil. Além do parlamentar e de Fábio Gordo, também foram presos o assessor parlamentar Júlio César Pereira da Costa, de 40 anos, e os cabos da Polícia Militar Rogério Alves de Carvalho e Ivilson Umbelino de Lima.

O deputado e os quatro homens presos na casa dele são acusados de porte ilegal de armas, tentativa de homicídio, formação de quadrilha e favorecimento pessoal (pela proteção a Fabinho Gordo, que estava foragido). O parlamentar, que tem curso superior, foi levado para a penitenciária Bangu 8, onde está seu irmão. Na segunda-feira, a polícia havia prendido o agente penitenciário aposentado Wagner Rezende de Miranda, de 52 anos, também acusado de pertencer ao grupo e que estava armado com pistola.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, classificou o deputado como líder dos milicianos e disse que, agora, "grande parte" do grupo está desarticulada. "O trabalho da polícia se desenvolve à medida que a investigação fica madura. A polícia faz isso independentemente da questão eleitoral." Ele disse que, desde o início do atual governo, foram demitidos 350 policiais, dos quais 70 acusados de serem milicianos.

CONTROLE

A "Liga da Justiça" controla o comércio de gás, a venda de sinal pirata de TV paga e o transporte ilegal nas favelas da Carobinha, Barbante e Vilar Carioca, em Campo Grande.

O delegado titular da 35ª Delegacia de Polícia, Marcus Neves, disse que cerca de 60 pessoas estão ligadas à quadrilha - 43 já identificadas, a maioria policiais. Por causa das investigações, a delegacia foi alvo de atentado à bomba e os investigadores sofreram ameaças. O deputado, que era inspetor, foi expulso da Polícia Civil na semana passada. O lucro do bando, de acordo com Neves, caiu de R$ 4,5 milhões para R$ 1,8 milhão mensais.

Na manhã de ontem, cerca de 50 pessoas fizeram um panelaço e um apitaço na frente da delegacia, para onde o deputado fora levado. Houve tentativa de invasão da delegacia, contida por policiais com gás de pimenta.