Quarta-Feira, 23 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Juro já afeta decisão de investimento
Pesquisa da Serasa mostra queda no número de empresas que se manifestam dispostas a ampliar a produção
Marcelo Rehder
Essa tendência vai ficar reforçada hoje, caso se confirme a expectativa do mercado de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anuncie um novo aumento da taxa básica de juros (Selic).
De acordo com o boletim Focus, divulgado ontem pelo BC, analistas de mercado esperam que seja mantida a "dosagem" do aumento dos juros, de 0,5 ponto porcentual, como ocorreu nas duas últimas reuniões do comitê. Atualmente, a Selic está em 12,25% ao ano.
"As empresas adotaram uma postura mais cautelosa em relação aos investimentos futuros porque sabem que o novo ciclo de aumento das taxas de juros vai contra a demanda", diz Carlos Henrique de Almeida, assessor econômico da Serasa, que coordenou a pesquisa.
O objetivo da alta nos juros é esfriar a demanda, reduzindo o espaço para repasses de aumentos de custo para os preços, o que pressionaria ainda mais a inflação.
No período de 12 meses terminado em junho, a inflação oficial, medida pelo IPCA,apurado pelo IBGE, já está em 6,06%, próxima do limite da meta de 6,5%.
O apetite do empresariado para investir começou a esfriar depois que o BC apertou a política monetária, em abril. "Por que iríamos investir agora, se exportar com esse câmbio não vale a pena e a perspectiva para o mercado interno é de desaceleração?", pergunta José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Vitopel, maior fabricante de embalagens plásticas flexíveis da América Latina.
A pesquisa mostra que o número de empresas que pretendem repetir o volume de investimento do ano anterior cresceu de forma proporcional à queda entre as que vão investir mais. Essa parcela subiu de 36% em 2007 para 41% este ano. Só 6% dos empresários falam em reduzir investimentos, mesmo número de 2007.
Para Júlio Sérgio Gomes de Almeida, assessor econômico do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), "a economia brasileira vive hoje um pouco do seu passado". Para ele, o investimento, o emprego e o crédito crescentes refletem condições muito boas de meses atrás, hoje já não tão favoráveis. "Mas a economia não reage instantaneamente e poderá prosseguir no caminho do crescimento, caso as incertezas comecem a ser desfeitas até o fim do ano."