Quarta-Feira, 23 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Poeta escondido em velhas páginas
Lançamento da obra completa valoriza os primeiros livros de Vinicius de Moraes, marcados por uma busca mística
Antonio Gonçalves Filho
O lançamento da coleção vem acompanhado de uma série de eventos em agosto, a começar pela aula-show em que a cantora Paula Morelembaum e o professor e compositor José Miguel Wisnik, acompanhados pelo crítico e músico Arthur Nestrovski, darão no dia 4, às 20 h, na Casa da Cultura Laura Alvim, no Rio, show que será reprisado no dia seguinte em São Paulo, às 21 horas, no Sesc Pompéia. No mesmo local, no dia 6, o organizador da coleção, Eucanaã Ferraz, Wisnik e convidados debatem a obra do poeta.
Ferraz, que é igualmente um grande poeta - ele acaba de lançar Cinemateca pela Companhia das Letras - , teve um trabalho imenso para localizar inéditos e examinar a correspondência de Vinicius, que se revelou uma fonte preciosa para a revisão de erros repetidos de edição em edição. Um, gritante, aparece num dos mais conhecidos poemas, Receita de Mulher (páginas 184 a 186 da Nova Antologia Poética). Nele, ao se referir à necessidade de estarem a caveira e a coluna vertebral da mulher ''levemente à mostra'', a palavra ''pertinente'' foi substituída por ''pertinaz'' e teria assim permanecido não fosse o olho clínico de Otto Lara Rezende. Não foi negligência de Vinicius, bastante rigoroso com sua obra poética, segundo Eucanaã, que comparou manuscritos e primeiras edições, publicadas de forma quase artesanal, sem os cuidados de revisão que merecia um poeta como ele.
''Ao contrário do que se supõe, Vinicius nunca foi um poeta espontâneo'', diz Eucanaã, após examinar poemas que passaram por até 15 revisões do autor. O compromisso de Vinicius com a fidelidade era tão grande que, numa carta endereçada a Manuel Bandeira, ele pergunta detalhes técnicos sobre o prédio do MEC - desenhado em 1937 por Le Corbusier e marco do modernismo brasileiro - para que sua elegia ao painel de Portinari e ao trabalho arquitetônico de Niemeyer e Lúcio Costa repetisse, de forma minimalista, as palavras azul e branco tantas vezes quantos fossem os andares (Azul e Branco, página 81 da Nova Antologia Poética).
Não é só essa a característica que se julgava ausente da personalidade de Vinicius, mais associado ao ''bon vivant'' das praias que consumia tonéis de uísque e cantava sambinhas sem compromisso. Os dois primeiros livros que chegam às livrarias trazem o lado menos conhecido do poeta maior da bossa nova, a do homem com preocupações místicas, transcendentais. O primeiro, O Caminho para a Distância (1933), lançado quando Vinicius se formava em Direito e terminava o curso de oficial de Reserva, é apresentado pelo amigo Otávio de Faria como um livro ''de difícil penetração''. E não estava errado. Quem sequer suspeitou da formação religiosa do poeta ficará surpreso com poemas fervorosos (Purificação, por exemplo), em que ele implora a Deus que o faça puro e guarde seu espírito.
Esse poeta católico do início de carreira foi dando lugar ao poeta sensual, sem a ''ânsia da pureza absoluta'' dos primeiros livros, observa Eucanaã Ferraz a respeito de Caminho para a Distância e Forma e Exegese (escrito em 1935 e há anos fora de catálogo). Se o mundo terreno era uma fronteira para a libertação do espírito, ele se torna cada vez mais desejável já nos anos de guerra, como prova seu livro Poemas, Sonetos e Baladas, de 1946. Essa seria a obra inaugural do ''lirismo solto'' exaltado pelo crítico Sérgio Milliet.
Milliet, tradutor de outro católico convertido à sensualidade, André Gide, considerava Vinicius ''o último e o mais brilhante dos poetas do modernismo ortodoxo'' - e foi esse o lado que prevaleceu. Ou não. Há quem garanta ter sido Vinicius um homem ''que viveu para se ultrapassar e para se desmentir'', como seu biógrafo José Castello, autor de O Poeta da Paixão. E paixão, no caso, era mesmo a da raiz latina, ''passio'', sofrimento, garante Eucanaã. A fórmula de Vinicius seria invariável, segundo ele: ''A única maneira de não sofrer é não estar apaixonado, mas não vale a pena estar em paz e não estar apaixonado.'' O amor, conclui o organizador da obra completa, ''é sempre um problema para Vinicius'', seja o divino ou o humano.
Uma impressão compartilhada por Eucanaã e Sérgio Milliet é a de que o ''lirismo solto'' dos sonetos de Vinicius não obedece à anarquia dos epígonos da Semana de 22, mas a uma construção formal sofisticada de que poucos críticos se deram conta, justamente por não se tratar de um poeta pedante. ''Ele também é visto como um poeta solar, que canta a luz da praia, mas Vinicius é, antes, um poeta noturno, um poeta da Lua'', define Eucanaã, concordando com Antonio Candido quando o crítico maior diz que, na história da literatura brasileira, ele é um poeta ''das continuidades, não de rupturas'', um homem que ''não tem medo de manifestar sentimentos''. Tanto é verdade que, segundo Eucanaã, as palavras que ele repete em sua obra, de modo obsessivo, são ''morte'' e ''Lua'', tão caras aos poetas românticos, pisando deliberadamente no terreno movediço da tradição lírica portuguesa.
O editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, conta que foi fisgado pelos sonetos de amor de Vinicius ainda adolescente e não poupa esforços para divulgar uma obra da qual já publicou 13 livros para adultos e dois infantis. Ainda esta semana, abre as portas da editora para receber livreiros brasileiros interessados numa aula sobre o poeta e promete, agora, partir para uma ação externa: vai convencer editores estrangeiros a traduzir Vinicius, que os gringos só conhecem como letrista da bossa nova.
Da solidão
SONETO DE LONDRES (Londres, 1939)
Que angústia estar sozinho na tristeza
E na prece! que angústia estar sozinho
Imensamente, na inocência! acesa
A noite, em brancas trevas o caminho
Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pela natureza!
Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável
Torre; que angústia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?
De deus
TARDE
Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.
Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.
Do tempo
SONETO DE ANIVERSÁRIO (Rio, 1942)
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura:
Que vê envelhecer e não envelhece.