Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Embratel quer barrar venda da Brasil Telecom para a Oi
Empresa inicia processo contra a aquisição nas autoridades de defesa da concorrência
Patricia Cançado e Renato Cruz
A Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) também recebeu um pedido semelhante. As secretarias vão analisar os pedidos. Embora, tecnicamente sejam pedidos de impugnação, a Embratel não pede aos órgãos de defesa da concorrência a rejeição total do negócio, mas sim a imposição de restrições em áreas relacionadas às telecomunicações que vão além do segmento de telefonia. As secretarias ainda não firmaram qualquer convicção sobre o pedido.
A legislação que rege as telecomunicações no País define a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) como o órgão instrutor para julgamento do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), mas as secretarias podem ser provocadas a darem parecer caso se entenda que a operação pode ter uma repercussão ampla no mercado brasileiro.
Como concessionária de longa distância, a Embratel é a concorrente que mais tem a perder com a operação, sobretudo em transmissão de dados corporativos, mercado que lidera desde antes da privatização. A união entre a BrT e a Oi criaria uma rede nacional alternativa de comunicação de dados, e poderia dificultar ainda mais o acesso da Embratel às redes locais, dominadas pelas concorrentes.
Na petição ao SDE, ela questiona a decisão de manter os dados da transação sob sigilo. Como se trata de uma operação de grande porte e repercussão, a companhia pede que as informações sejam públicas. "Este é o momento certo para reagir", disse uma fonte. "A operação está sendo analisada pela SDE e depois será estudada pela Anatel."
Politicamente, este também parece ser o melhor momento. O negócio é apoiado abertamente pelo governo. Mas a Operação Satiagraha, da Polícia Federal (PF), que chegou a prender o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, criou temores na administração pública em relação à operação. Dantas é um dos acionistas da BrT, e vai receber R$ 981,5 milhões, sendo R$ 268,8 milhões pelas ações que tem na controladora da empresa e o restante por participações diretas.
Os principais acionistas privados da Oi, Andrade Gutierrez e La Fonte (Carlos Jereissati), estão colocando somente R$ 400 milhões de dinheiro próprio no negócio. A maior parte dos recursos para a operação, que compreende a reestruturação societária da Oi e a compra da BrT, vem de bancos oficiais. O BNDES destinou R$ 2,569 bilhões à reestruturação societária e o Banco do Brasil concedeu um empréstimo de R$ 4,3 bilhões para a compra da BrT.
A compra da BrT pela Oi, pelas regras atuais, é ilegal, e o governo promove uma mudança nessas regras. O processo está nas mãos da Anatel, que promove uma consulta pública de uma nova proposta para o Plano Geral de Outorgas (PGO), um decreto presidencial que proíbe que as concessionárias fixas (Oi, BrT, Telefônica e Embratel) tenham controladores em comum. O novo texto permite que um mesmo grupo controle até duas concessionárias.
A consulta pública começou em 15 de junho, com prazo de 30 dias. Foi prorrogada por mais 15 dias, até 1º de agosto. A Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp), com outras seis associações de pequenas operadoras e de defesa do consumidor, pediu à Anatel para adiar o fim da consulta por mais 75 dias. A agência vai avaliar o pedido. Na visão dos acionistas da Oi e da BrT, a maior ameaça à aquisição é a possibilidade de o temor do governo fazer com que a mudança do PGO se atrase e acabe inviabilizando a operação.
Um estudo encomendado pela TelComp, que tem entre seus associados as empresas de Slim e outras concorrentes das concessionárias de telefonia local, apontou que a união das empresas prejudicaria a competição. Já um estudo da consultoria Pezco apontou que a fusão irá tirar uma empresa do mercado e que haverá uma opção a menos em longa distância nacional e em centrais de atendimento, entre outros fatores.