Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Para PF, Greenhalgh fez lobby por compra da Brasil Telecom pela Oi
Negócio de R$ 13 bi poderia render comissão recorde; desafio era conseguir alterar Plano Geral de Outorgas
Fausto Macedo, Marcelo Godoy e Renato Cruz
Além de Greenhalgh, o banqueiro teria usado os serviços do publicitário Guilherme Sodré, o Guiga, para obter apoio no Congresso e no governo para a operação. No relatório final do inquérito sobre a Operação Satiagraha, o delegado Protógenes Queiroz afirma que a atuação dos dois será alvo de um novo inquérito, a ser instaurado - eles tiveram a prisão temporária negada pela Justiça.
Desencadeada há 16 dias, a Satiagraha levou à prisão 18 pessoas - além de Dantas, foram detidos o investidor Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta, empresários e doleiros envolvidos em suposto esquema de desvio de recursos públicos, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Relatório de interceptação telefônica feito por Protógenes aponta uma ligação entre Greenhalgh e o executivo Humberto José da Rocha Braz como um dos principais indícios de lobby na fusão das teles. O diálogo ocorreu em 26 de março e durou 12 minutos. A conversa gira em torno da negociação para o fechamento da venda da BrT.
Braz - um dos acusados de oferecer US$ 1 milhão ao delegado Vitor Hugo Ferreira para livrar Dantas e parentes do inquérito Satiagraha - conta detalhes da negociação entre a BrT e o Citibank e fala em valores. Diz que o negócio é de US$ 260 milhões e a discordância entre o Citi e o Opportunity para fechar o negócio é de 0,3% do total. O problema seria o valor da Telemig Celular, que também seria vendida. Braz diz que o destino de um terço da empresa, avaliado em US$ 100 milhões, podia ser decidido em arbitragem. E conta a resistência do Opportunity em submeter o caso à arbitragem.
DILMA PRESSIONADA
Treze dias antes, às 10h14, Greenhalgh havia relatado ao lobista Sodré seus esforços para se aproximar da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, a fim de tratar da fusão. O advogado diz ter recebido um recado da petista, de que ela não queria falar mais sobre o assunto. A alegação: "O governo já se meteu demais sobre este assunto." Greenhalgh conta que tentou ainda encontrá-la em solenidade oficial, mas ela teria cancelado a ida ao evento, depois que soube da sua presença no local.
Outro problema relatado pelo grupo para a mudança do PGO era a suposta resistência do relator da matéria na Anatel, o conselheiro Pedro Jaime Ziller. Em telefonema interceptado em 5 de junho, Dantas conversa com Sodré. Este diz que quem criava problema era Ziller. "Enquanto não renovarem o mandato dele, ele não aprova", diz Sodré ao banqueiro.
O Estado procurou Ziller, que, por meio de sua assessoria, afirmou que não se manifestaria. Em junho, ele apresentou o relatório com as mudanças no PGO, aprovadas por unanimidade na Anatel. As alterações abriram caminho para a compra da BrT pela Oi. O mandato de Ziller acaba em novembro, e ainda não foi definido se ele permanecerá ou não no cargo.
O suposto lobby de Greenhalgh estendia-se ao PT. Ali, o advogado defendia a "reabilitação" de Dantas. Em conversa com Sigmaringa Seixas, ex-deputado do PT no Distrito Federal, ele diz que, "se fosse no tempo da União Soviética", seria necessário reabilitar "o cara", como ocorria com dissidentes mandados à Sibéria pelo regime comunista. E garante que o banqueiro estava mudando de vida.
?ACHISMO?
A conversa de Greenhalgh com Braz sobre os valores da venda da BrT para a Oi foi alvo de análise da PF. Em relatório, um agente menciona a possibilidade de os US$ 260 milhões citados por Braz serem valores referentes à remuneração do lobby e levanta a hipótese de que o dinheiro seria usado como caixa 2 em campanha eleitoral, mas não apresenta outro indício que fundamente a suspeita. Greenhalgh, por nota, e Braz, por meio de seu advogado, negaram essa hipótese, que trataram como fruto de "achismo" e "má-fé".
Ao Estado, Greenhalgh disse, na nota: "O diálogo, para qualquer pessoa, mostra que há uma negociação em curso, mas só mesmo a visão deturpada do doutor Protógenes pode visualizar os interlocutores como lobistas". Seu trabalho consistiu em analisar processos envolvendo o Opportunity, nas áreas civil e criminal. "Ajudei a conformar as propostas que foram exaustivamente debatidas entre as partes, até o acordo final. Advoguei. A negociação que resultou na criação da BrOi, foi árdua, longa, tensa, mas não teve nenhum ilícito."
O advogado de Braz, Renato de Moraes, afirmou que não conhece os áudios da investigação. "O Humberto é um executivo há mais de 20 anos, é pessoa séria e, de fato, participou da negociação da Brasil Telecom", declarou. Segundo Moraes, normalmente a transcrição dos diálogos feita pela PF não corresponde ao conteúdo fidedigno do áudio. "É interpretação subjetiva, achismo da autoridade."