Sexta-Feira, 25 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Toda a sofisticação européia da gaita de J.J. Milteau

Instrumentista francês toca pela primeira vez na cidade, no Teatro do Sesi, e mostra resultado da diáspora do blues

Jotabê Medeiros

Em janeiro, o gaitista francês Jean-Jacques Milteau esteve pela primeira no Brasil, mas bem longe das capitais: tocou no Festival Jazz & Blues de Guaramiranga, no Ceará, uma cidade de apenas 6 mil habitantes, a 100 quilômetros de Fortaleza.

Parecia longe o dia em que o veríamos por aqui, mas eis que esse mito do blues e do jazz europeus, de 58 anos, desembarcou na Avenida Paulista, em São Paulo, para dois shows - um já foi ontem, a última chance é hoje, no Teatro do Sesi, às 20 horas. Do Brasil, ele vai à Rússia.

J.J. Milteau, como é mais conhecido, toca acompanhado do seu fiel escudeiro, o violonista Manu Galvin. ''Comecei a tocar a gaita há 40 anos. Eu gostava de Bob Dylan e dos Rolling Stones, e comecei a tocar para meu prazer e para divertir os amigos'', contou o gaitista ao Estado, já em São Paulo, hospedado ontem num flat na Oscar Freire.

A vertente européia da gaita parece já ter desenvolvido um nível de sofisticação bastante particular, escorada nas performances de Toots Thielemans e J.J. Milteau, que tocou em discos de Aznavour, Jean-Jacques Goldman, Gabriel Yared, Barbara, Maxime Le Forestier e Yves Montand antes de sua carreira-solo.

Nascido em Paris, nas imediações da Porte D''Italie, ele começou encantado por Dylan e Stones, mas passou batido pelo rock preponderante em sua época e foi se voltar para o ritmo mais ancestral, o blues. Desde então, já acompanhou feras do blues ianque, como Mighty Mo Rodgers, Little Milton e Mighty Sam McClain. Em 2003, gravou em Nova York um disco fabuloso, Blue 3rd, no qual tem as digníssimas companhias do tubista Howard Johnson e do decano ativista Gil Scott-Heron, o fabuloso autor de Revolution Will Not Be Televised, hino contracultural dos anos 60. Nesse disco, Scott-Heron canta Home Is Where The Hatred Is.

''Não sou jazzista. Adoro tocar com os jazzistas, mas não sou um jazzman. Aprecio a espontaneidade e também tenho como característica a improvisação. Jamais toco do mesmo jeito duas vezes. Mas o que faço é interpretação, e não tem a ver com a improvisação total do jazz'', ele diz.

Embora, pelo estilo, se possa dizer que ele é um bluesman que nasceu distante do Delta do Mississippi, Milteau gosta muito também de outros gêneros americanos, como o zydeco e o country, e ritmos tradicionais, como os jiggs irlandeses. Em 2001, revisitando a tradição musical de Memphis, gravou um disco (Memphis) que ganhou o prêmio Victoire de la Musique, o equivalente francês dos prêmios Grammy americanos.

Seu mais recente trabalho discográfico é Fragile, de 2006, com as cantoras Michelle Shocked e a fantástica Demi Evans (no ano passado, lançou um ao vivo, Live Hot N Blue, todos pelo selo Emercy France). ''Em outubro, será lançado um novo disco, Soul Conversation, que reúne música original e também standards, e um pouco de folk e country'', contou o gaitista. Ele adiantou que já está em negociações para que o lançamento se dê também no Brasil, onde não tem nenhum álbum lançado.

Milteau adora o trabalho com cantores, especialmente cantoras. Ele faz um dueto belíssimo com a cantora americana Demi Evans, de voz grave e interpretação compungida. Demi, que é texana, mantém uma originalíssima abordagem do repertório afro-americano, como na soul song Heaven, que ela cantou na entrega dos Victoire de la Musique. Mas também é festiva, como se pode ver em canções como Jack the Man, à disposição no YouTube. Já Manu Galvin, seu violonista, é um profissional que tem numerosos fãs entre músicos, por conta de seu estilo eclético e da trajetória profissional autodidata.

Milteau comentou sobre a agradável acolhida que teve no Ceará, em janeiro. ''É uma platéia muito entusiástica, quente. E a música que ouvi lá é bem diferente da música brasileira que geralmente ouvimos na Europa, mais próxima da bossa nova'', contou.

Segundo sua assessoria, as atividades do músico não se resumem somente às turnês e estúdios: tem desempenhado as mais diversas funções, como compositor, engenheiro de som, editor e fotógrafo. Já compôs também trilhas sonoras para o cinema, música para programas de televisão e publicidade. Também já publicou livros abordando a técnica da harmônica.


Serviço
Jean Jacques Milteau. Teatro do Sesi. Av. Paulista, 1.313, 3146-7405. Hoje, 20 h. R$ 10