Sábado, 26 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Decisão do Itamaraty isola a Argentina
País é o único dos sócios do Mercosul que não aceita o acordo proposto
Por meses, o governo Lula garantiu que nada que ocorresse na OMC colocaria a unidade do Mercosul em risco. Ontem, essa aliança mostrou seus limites. O governo da Venezuela já alertou que vai seguir a Argentina e acusa o Brasil de ter abandonado Buenos Aires na fase crítica das negociações. A decisão do Itamaraty rompe, na prática, com duas das alianças mais consolidadas do País nos últimos anos: o G-20 e o Mercosul.
O Brasil articulou a criação do G-20 em 2003 como forma de conter a pressão dos países ricos na OMC. A estratégia funcionou e, em inúmeras reuniões, Brasil e Índia se apresentaram como os líderes dos países mais pobres. Mas ontem o racha foi inevitável.
"Do jeito que está na mesa, não aceitamos um acordo", disse o ministro de Relações Exteriores, Jorge Taiana, respondendo a uma pergunta do Estado. O chanceler Celso Amorim, que declarou há dois dias "solidariedade eterna" à Argentina, sabe que terá agora pouco tempo para convencer Buenos Aires a aderir ao pacote. O cálculo do Brasil é o de que Buenos Aires não resistirá ao custo político de vetar um acordo mundial.
O principal problema dos argentinos refere-se à abertura do setor industrial para as importações. O país acredita que a liberalização proposta é exagerada e vai afetar a capacidade de manter sua indústria. "Temos várias reservas ao texto, algumas muito sérias", alertou Taiana. Antes de ser eleita, a presidente Cristina Kirchner foi até a OMC avisar: "Ninguém nos dirá o que fazer."
Na prática, o governo brasileiro trocou de lado na América Latina. Deixou o bloco que conta com Argentina, Bolívia, Venezuela, Cuba e Nicarágua pelo grupo formado por Chile, Peru, México, Costa Rica e Colômbia, considerados mais abertos.
Politicamente, porém, o Brasil não pode simplesmente abandonar o grupo. Hoje, convocou uma reunião ministerial do G-20 (grupo de países emergentes) e sabe que terá de encarar o descontentamento de Índia, Argentina e outros.
Hoje, Buenos Aires está mais isolada que nunca. Uruguai e Paraguai também deram mostras de que vão acatar o acordo. Questionado se a Argentina mostraria flexibilidade, o secretário de Comércio da Casa Rosada, Alfredo Chiaradia, se irritou e insultou a reportagem do Estado. Um diplomata do Mercosul não poupou críticas aos argentinos. Disse que nem Buenos Aires sabe o que quer. Taiana teria chegado a Genebra com apenas uma orientação: não fazer concessão.
Indagado sobre como convenceria a Argentina, Amorim disse que não era "nem padre nem psicólogo". Mas garantiu que continuará falando com as autoridades argentinas para chegar a um acordo.
"Amorim decidiu jogar a favor do sistema multilateral. O Brasil conseguiu isolar os países que têm problemas. Mas agora precisaremos ter uma conversa muito franca com a Argentina. A tarefa de Amorim não será fácil", avisou o diretor de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mario Marconini.