Segunda-Feira, 28 de Julho de 2008 | Versão Impressa
Programa duplo leva a refletir sobre criação contemporânea
Regra de Dois e Sexo, Amor e Outros Acidentes são interpretados por seus autores
Crítica Helena Katz
São duas obras muito distintas que oferecem materiais para uma conversa sobre pensamentos contemporâneos em dança. Regra de Dois estreou em 2006, e Thembi e Renata só a retomaram agora, para esta temporada. Sexo, Amor e Outros Acidentes nasceu em 2004 e, no ano seguinte foi premiado com o APCA de melhor criação e interpretação. É louvável que a programação de dança dessa unidade do Sesc se poste na contramão dos danos que a exigência de somente estréias vem produzindo.
Os 45 minutos de Regra de Dois vão distribuindo modos musicais de ocupar o espaço. Os tempos e as métricas de cada segmento montam uma partitura com as relações dos dois corpos em contrapontos, clusters, fermatas, codas. Muito possivelmente, essa característica vem do convívio de Thembi Rosa com o duo instrumental O Grivo, responsável pelas trilhas de suas produções desde 2000.
O tipo de relacionamento entre Thembi e Renata questiona o uso da terminologia habitual de duo, embora seja uma produção com duas bailarinas. Remete mais a um solo que, em algumas das suas situações, necessita de dois corpos para poder cumprir as instruções que o compõem. Em alguns momentos, cada um dos corpos pode resolver sozinho como se mover com quatro, três, dois ou um apoio. Mais adiante, ao fazer do outro o seu apoio, instala uma parceria indispensável, que se dissolve novamente em outras situações, como a das espirais, ou a do momento de realizar algum movimento no tempo que certos objetos levam para cair. Depois, se reinstala de novo, quando os dois corpos se tornam um a restrição do outro, como no momento dos abraços produzidos pelo inspirar/expirar. A alternância entre independência e co-dependência vai costurando Regra de Dois e se torna uma das suas questões.
A necessidade de responder a cada uma das muitas instruções a que se propuseram fez nascer movimentações ricas, desenhos de movimento que vão tonalizando o espaço com uma espécie de precisão contundente, daquele tipo que só nasce quando a investigação não cede em rigor. O gesto surge sempre como necessário e dura só o tempo igualmente necessário. Tudo muito seco e muito ajustado aos propósitos de testar aquilo do que a dança é feita: peso, fluxo, dinâmica, tempo, espaço.
As diferentes qualidades da movimentação das duas intérpretes-criadoras também colabora para a musicalização dessa partitura de espaço que vai nascendo ao longo do espetáculo. Duas vozes/corpos executando as mesmas tarefas e pontuando, com as suas peculiaridades, as distintas soluções que vão surgindo. Regra de Dois é um desses trabalhos capazes de serem dados como exemplo de pesquisa em dança contemporânea - assunto hoje muito discutido na área.
Morena Nascimento pertence a outra filiação estética, na qual os interesses se centram mais em assuntos e personagens. Não à toa, trabalha hoje na companhia de Pina Bausch - uma sintonia de interesses que Sexo, Amor e Outros Acidentes já anunciava. Trata-se de uma intérprete realmente rara. Aquilo que se nomeia de ''presença cênica'' tem nela uma força e uma amplitude que, mesmo na juventude dos seus 28 anos, a inscrevem no seletíssimo grupo daqueles que antigamente eram chamados de ''estrelas''.
Essa sua espantosa facilidade em lidar com os materiais que escolhe acaba sendo também a sua principal fragilidade, quando lhe faz ficar no tratamento superficial das imagens que apresenta. Os temas são complexos, mas a interpretação e a dramaturgia estão ainda em patamares distintos. A continuidade da sua produção, se acompanhada por algum olhar externo, deverá transformar esse atual desequilíbrio em uma circunstância transitória.