Terça-Feira, 29 de Julho de 2008 | Versão Impressa

Novo alerta do FMI

A crise financeira não arrefece, aumenta o aperto do crédito e o teste imposto às economias emergentes é cada vez mais severo, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI). Os economistas do Fundo mantêm a estimativa de perdas próximas de US$ 1 trilhão nos mercados de crédito, apresentada em abril no Relatório sobre Estabilidade Financeira Global. Três meses depois, as perspectivas continuam inquietantes, segundo edição revista do relatório, divulgada em Washington, nessa segunda-feira, enquanto as ações de bancos eram as que mais caíam na Bolsa de Nova York.

Os fatos têm desmentido as previsões mais otimistas do início do ano, quando alguns analistas afirmaram estar superada a pior parte da crise. Ninguém sabe quando terminará a série de más notícias é a essência da mensagem apresentada no documento do FMI.

Na última sexta-feira, o governo americano fechou mais dois bancos, o First National Bank of Nevada e o First Heritage Bank of Newport Beach. No mesmo dia o Senado aprovou um socorro de até US$ 300 bilhões a duas grandes agências patrocinadas pelo Tesouro, a Fannie Mae e a Freddie Mac, comprometidas com financiamentos hipotecários de US$ 5,2 trilhões. O socorro foi bem recebido, mas não bastou para eliminar a insegurança do mercado, agravada com o anúncio de perdas do Banco Wachovia (mais de US$ 8 bilhões) e as expectativas de mais prejuízos em grandes instituições americanas.

Até agora, os emergentes conseguiram resistir aos abalos no setor de crédito, mas as condições de financiamento estão ficando mais apertadas, observou o diretor do Departamento Monetário e de Mercados de Capitais do FMI, Jaime Caruana, ao apresentar a atualização do relatório numa entrevista coletiva. Os investidores, segundo ele, estão ficando mais cautelosos e vão diferenciar os mercados emergentes, dando preferência àqueles com políticas monetária e fiscal ajustadas para enfrentar a inflação.

O recado é oportuno, mas nem economias com grau de investimento e política monetária elogiada internacionalmente, como a brasileira, estão imunes a efeitos da crise. O aperto do crédito já afeta empresas brasileiras em busca de financiamento para exportações.

O prazo dos empréstimos encurtou, o custo cresceu e nem grandes empresas, com importante atuação no mercado global, estão livres desse problema. A piora do cenário internacional se reflete nas operações do Banco do Brasil: no primeiro semestre, sua oferta de recursos com vencimento até um ano, para financiamentos pré e pós-embarque, foi 50% menor que a de um ano antes.

As condições de crédito para os emergentes podem piorar, se o cenário financeiro nos Estados Unidos e noutros países do Primeiro Mundo continuar a deteriorar-se. Boa parte das perdas no mercado hipotecário já foi reconhecida nos balanços, mas os prejuízos podem crescer com novos calotes, mais execuções de dívidas em atraso e maior desvalorização dos imóveis nos Estados Unidos.

Grandes bancos comerciais podem ter novas perdas importantes, segundo o relatório. "No momento, o fundo do poço para o mercado imobiliário não é visível." Depois de inscrever prejuízos de mais de US$ 400 bilhões em seus balanços, muitos bancos conseguiram levantar mais capital, mas em volume insuficiente para cobrir as perdas, e isso não é o pior: levantar recursos está ficando mais difícil, segundo os autores do relatório.

Na semana passada, o FMI divulgou a atualização de seu Panorama Econômico Mundial distribuído em abril, na reunião de primavera. As projeções de crescimento econômico foram alteradas ligeiramente para cima. As previsões de inflação, no entanto, pioraram consideravelmente. No caso dos Estados Unidos, a revisão do Panorama evidenciou, mais uma vez, o dilema do Federal Reserve, o banco central, entre elevar os juros para conter a inflação e mantê-los baixos para impedir o agravamento da crise financeira e econômica. A atualização do Relatório sobre Estabilidade Financeira Global torna mais dramático esse quadro, chamando a atenção para o risco de agravamento do quadro econômico por causa da crise financeira.