Quarta-Feira, 06 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

O papel das operações especulativas

Com a taxa Selic tão elevada, as operações de arbitragem realizadas por investidores estrangeiros estão contribuindo para a apreciação do real, que, por seu turno, representa um atrativo a mais para as arbitragens. Daí a forte corrente de opiniões contra essas operações, que afetam indiretamente o comércio exterior, reduzindo a capacidade de competição dos exportadores brasileiros e estimulando a importação.

No entanto, convém examinar essas operações em todos os seus aspectos.

Não se pode negar que sob o duplo efeito - da taxa Selic e da taxa cambial - as operações de arbitragem são, de fato, estimuladas. Investidores norte-americanos, que buscavam uma aplicação segura ao comprar títulos da dívida do seu país, cujo rendimento está diminuindo, não ultrapassando hoje 2% ao ano, voltam-se para os títulos de renda fixa - na maior parte, papéis do Tesouro brasileiro - que oferecem uma remuneração muito melhor: o rendimento da Selic, de 13% ao ano, mais a variação da taxa cambial, que, com a elevação da Selic, tende a se apreciar. Para controlar a entrada desse capital dito especulativo, o governo criou um IOF de 1,5% que inicialmente reduziu o seu fluxo, mas que hoje, mesmo com o IOF, rende pelo menos 11,5% ao ano.

Com a última decisão do Comitê de Política Monetária de elevar a Selic, essas operações de arbitragem, que chegaram a US$ 902 milhões em junho, elevaram-se, até 28 de julho, para US$ 3,227 bilhões, contribuindo, assim, para fortalecer a valorização cambial. Como a maioria dessas operações destina-se à compra de títulos de longo prazo da dívida do Tesouro, o seu efeito indiretamente positivo é que sem elas o Tesouro seria obrigado a oferecer juros mais altos para papéis de menor prazo.

A entrada desse capital, dito especulativo, foi muito inferior, em julho, à saída de capital externo no mesmo mês, num montante de US$ 7,626 bilhões. Isso afetou o saldo cambial, no que se refere às operações financeiras, que deveria compensar as dificuldades para se obter saldo positivo nas operações comerciais. Amanhã o Banco Central deve divulgar dados sobre o saldo das operações de câmbio que, provavelmente, salvo uma excepcional entrada de investimentos estrangeiros, deverá ser negativo. Podemos entender, portanto, que esse capital tenha hoje um papel importante para reduzir o déficit das contas financeiras e favorecer a cobertura das emissões de títulos públicos.