Sexta-Feira, 08 de Agosto de 2008 | Versão Impressa
Cordélia Brasil volta como caricatura
Peça de Antonio Bivar, que foi um dos símbolos dos anos 1970 contra a ditadura, é remontada como simples brincadeira
Crítica Jefferson Del Rios
Na primeira versão do espetáculo (Rio de Janeiro e São Paulo) estavam Norma Bengell, Emilio Di Biasi (também diretor) e Paulo Bianco. Bivar escreveu na ocasião: "Gostaria de que vissem o meu teatro como um teatro de experiências (...) A nossa época me parece absurda. A realidade histórica, absurda. Sinto que todos buscam com desespero a realidade de um mundo que é incerto e onde a fronteira entre o sonho e a realidade muda a cada instante. E fazendo parte deste mundo, eu estou comprometido até a alma com o absurdo, ou seja, com a nossa realidade." No Brasil de regime militar, aquilo soava como uma mensagem, e a peça adquiriu contornos profundos. Emilio Di Biasi, no entanto, acrescentou: "Não gosto de teorizar sobre o que faço (...) queria apenas dizer que sinto a maior ternura por estas criaturas, por isso não quero criticá-las."
O espetáculo foi uma explosão emocional. O espaço do Teatro de Arena reproduziu entre o público e o elenco a lei da física segunda a qual a cada ação corresponde uma reação. Havia eletricidade crescente no ar à medida que o texto um tanto absurdo e anarquista de Bivar adquiria velocidade dramática nas atitudes de Norma Bengell. Cordélia ia num crescendo de revolta diante do absoluto amoralismo passivo do marido que Emilio Di Biasi representava como um tipo assexuado e com a maldade falsamente inocente de O Amigo da Onça, o canalha "distraído" da revista O Cruzeiro (bom ator, Emilio tinha até o bigodinho do Onça). Norma Bengell dera já o salto dos musicais para expor seu temperamento intenso de atriz nos filmes Pagador de Promessas, Os Cafajestes, Noite Vazia e Antes, o Verão. Seu rosto belo e sofrido deu a medida do desespero de Cordélia. O momento de rompimento com o marido era um monólogo devastador, interrompido pelos aplausos que a protagonista, exausta, parecia não ouvir. Nessa época, Norma Bengell, que tomara publicamente atitudes políticas, foi seqüestrada na porta do seu hotel, levada até o Rio de Janeiro, para nada. Um recado da linha dura militar.
Quarenta anos depois, uma Cordélia Brasil confusa e incolor é remontada sem nada que faça lembrar uma mulher enérgica, sem afeto e sexo do marido parasita e sendo obrigada a se prostituir para comer. Em nenhum momento Maria Padilha parece crer minimamente no que está fazendo. Sem querer, sua atuação mostra que há mesmo algo de errado na construção de um personagem forte, mas que se deixa levar de forma pouco plausível por uma figura masculina secundária. É aflitivo procurar a Maria Padilha que irrompeu em 1978 no teatro profissional em O Despertar da Primavera,de Frank Wedekind, e que em seguida teve outras atuações de destaque. Ela, aqui, desfila um figurino de mau gosto inverossímil, sobretudo no seu momento funcionária pública. Do elenco, só George Sauma tem a verdade que até sua pouca idade real e experiência de vida reforçam. A ficha técnica, pela extensão, parece uma brincadeira, mas traz até o respeitado nome de Maneco Quinderé numa iluminação de rotina.
O diretor Gawronski diz de maneira esotérica que o texto, além de retratar uma realidade próxima, "nos faz refletir sobre uma identidade de cidadãos que ainda muitas vezes é obscura". Deve ser para ajudar nessa reflexão que, em dado momento, o público é convidado a fazer bolinhas de sabão com um brinquedinho deixado sobre as poltronas. A imagem acabada da encenação.
Serviço
Cordélia Brasil. 90 min. 16 anos. Sesc Paulista. Espaço Décimo Andar (90 lug.). Av. Paulista, 119, tel. 3179-3700, metrô Brigadeiro. 6.ª a dom., 20h30. R$ 20. Até 7/9