Sexta-Feira, 08 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

Lei seca desemprega músicos de bares de SP

Com freguesia menor, cantores agora apelam até para festas em prédios

Rodrigo Brancatelli

A filhinha de 3 anos de Lafayette Ramos de Novaes é a mais feliz com esta história. E talvez a única, convenhamos. "Agora fico aqui bem mais em casa cuidando dela, brincando, é que sobra né", diz o músico de 52 anos, mais conhecido pelo apelido de Faéti na noite paulistana. Sua biografia não caberia neste parágrafo - na versão reduzida, ele é o compositor do samba-rock Ben Johnson, criador do grupo infantil Toca do Coelho (aquele da música Namoro Proibido, que tocava incessantemente no começo da década de 90) e já foi membro das bandas de apoio de Jamelão, Neguinho da Beija Flor, Dona Ivone Lara e Jorge Aragão. Hoje, no entanto, ele é cada vez mais um pai exemplar.

"A lei seca foi uma pá de cal no nosso trabalho", ressente-se Faéti, que acabou de perder o emprego em um bar na Praça d. José Gaspar, no centro, onde tocava toda quinta-feira. "Eu sou macaco velho, toco desde 1981. Na minha época, até festa evangélica era boêmia. Isso não existe mais, por causa da lei do silêncio, da lei seca, as coisas estão afunilando. Hoje o camarada não bebe, sai cedo do bar para ir para casa, não vai com tanta freqüência. A noite de São Paulo já não é mais a mesma, a boemia acabou."

O ressentimento é cada vez mais amplo. E a lei seca, que proíbe os motoristas de dirigirem depois de terem ingerido qualquer quantidade de bebida alcoólica, é apontada como a grande vilã. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a queda do movimento nos bares varia de 20% a 40% nas noites de quinta e sexta-feira e nos fins de semana, quando ocorrem as blitze policiais. Muitos têm feito promoções (dois chopes pelo preço de um), incentivado os clientes a usar táxi (no CB Bar, na Barra Funda, quem chega de carona ganha desconto) e criado as mais diversas alternativas (na festa Trash 80?s, no centro da capital, seguranças foram contratados para acompanhar os clientes que chegam ou vão embora de metrô).

Pela estimativa do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio e Serviços em Geral de Hospedagem, Gastronomia, Alimentação Preparada e Bebida a Varejo de São Paulo (Sinthoresp), houve um aumento de 15% nas demissões em bares, restaurantes, lanchonetes e hotéis no mês de julho. O setor emprega ao todo cerca de 300 mil pessoas - entre elas, centenas de músicos profissionais, a ponta mais recente dos reflexos da lei seca. "Antes eu fazia shows a semana inteira, arrebentava a boca do balão, era uma delícia", conta o cantor Léo Marcos. "Hoje nem tenho feito mais casas noturnas, o trabalho sumiu."

CULTURA DE BOTECO

Léo Marcos, voz aveludada, sempre impecavelmente vestido com blazer branco e cantando em cima de um tecladinho meio anos 80, já lançou três álbuns na sua carreira e fez turnê por Portugal. Em 1992, ganhou disco de ouro pela sua versão em português de Killing Me Softly with His Song, famosa na voz de Roberta Flack, que ganhou por aqui o nome de Me Faz Perder o Juízo. Até o mês passado, ele entoava essa e outras canções em um bar na Rua Avanhandava, no centro de São Paulo. "Mas não me chamaram mais", conta. "O movimento anda fraquíssimo, então o dono não tem mais dinheiro para pagar o cachê. Está cada vez mais difícil ser músico."

Os próprios donos de bares assumem que os cachês dos músicos são os primeiros itens que estão entrando no corte de custos. O empresário e músico José Domingos da Silva, sócio do Bar Confraria, na Avenida Doutor Arnaldo, não teve alternativas senão baixar as portas. "O bar tinha dez anos, sempre tivemos músicos contratados, uns seis da banda de apoio mais uns quatro cantores", diz. "Mas o movimento caiu, a clientela rareou, dava prejuízo... No fim de semana, só tinha uns gatos pingados. E tivemos de fechar, não tinha jeito."

Para o publicitário Celso Luis de Oliveira, mais conhecido na boemia paulistana como Celsinho da Cuíca, o poder público precisa urgentemente pensar alternativas para que os clientes dos bares continuem tomando sua cervejinha e ouvindo boa música nos bares. "É preciso ter ônibus noturnos, para que todo mundo consiga chegar aos bares e depois voltar para casa", diz ele, um dos idealizadores do movimento Cultura de Boteco, que procura reencontrar o espaço da noite de antigamente e ressuscitar as rodas de samba de raiz nascidas nos morros do Rio nos anos 50 e adotadas por São Paulo. "Hoje a gente fez até festa em condomínio no Itaim para conseguir continuar tocando e ganhando. Os bares costumavam pagar uns R$ 50 por noite, os condomínios pagam quase R$ 150 para cada músico. Só que no fundo, não é o ideal. Lugar de músico da noite é no bar, não dentro do prédio residencial. Músico vive de aplauso e esperança, de que um dia vai ser descoberto, que vai tocar no Faustão. E isso vai acontecer no botequim, não em casamento e batizado."

FRASE

Celso Luis de Oliveira

Músico

"Hoje a gente fez até festa em condomínio no Itaim para conseguir continuar tocando e ganhando. Só que, no fundo, não é o ideal. Lugar de músico da noite é no bar, não dentro do prédio residencial. Músico vive de aplauso e esperança de que um dia vai ser descoberto, que vai tocar no Faustão. E isso vai acontecer no botequim, não em casamento e batizado"