Sábado, 09 de Agosto de 2008 | Versão Impressa
Emoção e exuberância
Chineses mostram rigor e beleza impecáveis na cerimônia de abertura, [br]saltam períodos ruins de sua história e exaltam o presente, 'a Era Gloriosa'
Cláudia Trevisan, Robson Morelli E Wilson Baldini Jr.
Os últimos dois séculos de humilhação, invasão por potências estrangeiras, desagregação, guerra civil e revolução comunista não foram convidados para a festa concebida pelo diretor Zhang Yimou. Em vez de Mao Tsé-tung (1893-1976), quem dominou a noite foi Confúcio (551-479 a.C.) e sua releitura contemporânea na "sociedade harmônica" proposta pelo presidente Hu Jintao.
As grandes invenções do Império do Meio, o confucionismo, as dinastias gloriosas, as tradições culturais e as antigas rotas comerciais deram o tom da primeira parte do espetáculo, a "Civilização Brilhante".
O presente foi batizado de "Era Gloriosa" e apresentado de maneira muito mais abstrata que o passado. Não havia personagens nem fatos históricos, com exceção da Olimpíada. Luzes refletiam a modernidade, enquanto os símbolos de paz (a pomba) e harmonia com a natureza (o tai chi chuan) traduziam o discurso da "emergência pacífica da China" repetido pelos atuais líderes comunistas.
O público participou do espetáculo acenando com bastões de luzes vermelhas, amarelas, azuis e verdes, que formavam um pano de fundo colorido para a cerimônia. Tudo se passa sobre um imenso pergaminho chinês, que emergiu do centro do estádio depois da contagem regressiva, realizada com perfeita sincronia por 2.008 atores ao som de um antigo instrumento de percussão chinês, o "fou".
Com 22 metros de largura e 147 metros de comprimento, o pergaminho funcionava como uma tela na qual eram projetadas imagens dos eventos históricos narrados. O primeiro foi a invenção do papel pelos chineses no início do século 2 - uma das quatro creditadas ao Império do Meio. As outras são a pólvora, a impressão e a bússola.
O centro do pergaminho foi ocupado por uma "folha" de papel de 20 metros de cumprimento, 11 metros de largura e 20 milímetros de espessura. Dançarinos de preto pintavam o papel, enquanto imagens de antigas manifestações artísticas chinesas eram projetadas nele.
A invenção da impressão ganhou uma das mais originais representações da noite, com 897 atores dentro de colunas que se moviam como os tipos móveis de madeira inventados no século 8, ou 700 anos antes de Gutenberg. Sobre cada um, diferentes ideogramas chineses.
Atores moviam as colunas criando imagens, como o ideograma "He" (harmonia). Também representaram a Grande Muralha, uma das mais impressionantes construções do mundo, com 6.700 quilômetros.
O isolamento que marcou os últimos séculos do Império do Meio foi outro elemento ausente do espetáculo, que destacou dois poderosos símbolos de ligação da China com o mundo exterior - a Rota da Seda e as expedições marítimas comandadas pelo navegador Zheng He (1371-1433).
A primeira etapa foi concluída com a projeção no pergaminho gigante de pinturas feitas em cinco dinastias: Tang (618-907), Song (960-1276), Yuan (1271-1368), Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911). Nas laterais, surgiram colunas vermelhas com imagens douradas de dragões, figura identificada com o povo chinês.
A partir daí, a narrativa deu um salto para os dias atuais, com a projeção de luzes coloridas sobre os atores reunidos ao redor do pianista chinês Lang Lang, que tocava junto com a garota Li Muzi, de 5 anos.
A harmonia com a natureza celebrada em várias das tradições filosóficas da China encerrou o espetáculo. Imagens de baleias eram projetadas na parte superior do estádio, enquanto os telões mostravam um texto que fazia menção ao aquecimento global e defendia a reconciliação com a natureza.
No final, um globo de 18 metros de diâmetro emergiu do centro do estádio e, ao seu redor, nove círculos sobre os quais caminhavam atores. No encerramento, a pira olímpica foi acesa de maneira surpreendente. A natureza retribuiu: não caiu uma única gota de chuva nas quatro horas de festa.