Domingo, 10 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

A cidade de cada um

Fátima Pacheco Jordão*

A avaliação de desempenho do atual prefeito, em qualquer cidade, é uma referência importante para o eleitor. Insisto, o eleitor não é bobo. Sabe o que é bom para a sua cidade e tende, grosso modo, a discernir o que é atribuição de prefeito, governador e presidente. Portanto a lógica da continuidade (ou não) estará sempre presente no processo de escolha.

O cientista político Alberto Carlos Almeida, no livro A Cabeça do Eleitor (Editora Record), analisa eleições municipais de 2000 e 2004 e aponta a relação entre aprovação da gestão e reeleição do governante aprovado (ou vitória do candidato apoiado por ele). Afirma: "Pode-se dizer que os candidatos do governo tendem a vencer quando a soma de ?ótimo? e ?bom? está acima de 50%. Quando está abaixo disso, a derrota é absolutamente certa."

Analisar as probabilidades dos candidatos com estes parâmetros, nesse estágio do processo, ainda que muito inicial, pode ajudar a mapear os caminhos desta eleição. Mesmo porque, dos 4.368 prefeitos habilitados a disputar, 3.361, a grande maioria (77%), buscarão se manter no cargo. Outros terão candidatos que representarão a continuidade.

Em fevereiro, o instituto Sensus, em pesquisa em 136 municípios, indicou que a avaliação média dos prefeitos é de 42% de "ótimo" e "bom". Pelo estudo, portanto, teremos uma eleição de panorama favorável à oposição.

Mas cada caso é um caso e muitas propostas ou realizações de diferentes administrações têm vários donos. Em São Paulo, por exemplo, valem mais os CEUs criados por Marta ou os vários implantados por Kassab? A proposta de criação do Pró Criança tem mais cara de Alda Marco Antonio, vice de Kassab, ou de Marta, que o propõe agora?

De outro ângulo, o projeto Cidade Limpa terá continuidade? Quem administra melhor benefícios como vale-transporte ou soluções como corredores de ônibus? O eleitor estará processando cada uma destas questões.

No momento, existem alguns parâmetros nos campos de aprovação e reprovação de cada administração.

Em São Paulo, segundo pesquisas do Ibope para o Estado, o prefeito Kassab é aprovado por 36% dos eleitores. Mas entre estes, apenas 22% tendem a votar nele - 39% preferem Alckmin e 18%, Marta. Portanto, ele vai ter que se esforçar para consolidar a imagem e a identidade da sua administração, que, neste momento ainda é caudatária do governador Serra. Este também precisará de graus de liberdade para transferir os benefícios de sua imagem (afinal Kassab não é o candidato do seu partido), sem carregar junto o peso da tutela.

Alckmin está mais confortável entre os eleitores paulistanos que aprovam Serra. Dentre estes, 43% votariam nele, 12% em Kassab e 22% em Marta.

Quando, no debate da TV Bandeirantes, Marta fez uma referência favorável a Serra, se dirigia a esse contingente que, ao mesmo tempo, avalia bem o governo Serra e tem intenção de votar nela. São 8% dos eleitores, cruciais para uma vitória no 1º turno.

A candidata petista pode contar com os que avaliam favoravelmente sua gestão passada e pode também ampliar eleitores no campo de aprovação de Lula, pois apenas 50% dos que avaliam positivamente o presidente pretendem, neste momento, votar nela.

A lógica da continuidade escolheu o empresário Márcio Lacerda (PSB) como candidato de uma aliança heterodoxa de PSDB, PSB e parte do PT, em Belo Horizonte. Ele tem hoje 8% dos votos.

O governador Aécio (PSDB) e o prefeito Pimentel (PT) têm mais de 70% de aprovação. Mas Jô Moraes (PC do B) lidera na capital mineira, com 17% de intenção de votos, no conjunto do eleitorado. Lidera também entre os que avaliam positivamente Aécio e Pimentel. Entre os que aprovam Lula, tem 19% de votos e é líder.

O arranjo de cúpula não agradou a parte do eleitorado. Mas Jô é parlamentar há mais de dez anos, eleita deputada federal em 2006 com expressiva votação na cidade. Dificilmente manterá a liderança, tal a força do apoio a Lacerda, mas o conceito de continuidade nesta eleição mineira terá um outro jeito. Virá também da prática de ações sociais na base. Jô Moraes vai dar mais trabalho do que se poderia prever. Afinal de contas falamos de eleições mineiras, uai!

* Socióloga