Segunda-Feira, 11 de Agosto de 2008 | Versão Impressa
Violência deixa alunos de favela sem aula
Relatório de entidades mostra que escolas foram fechadas no Complexo do Alemão, no Rio
Clarissa Thomé
"Não foi possível verificar como a falta de aulas se refletiu no aprendizado por causa da promoção automática", afirmou a relatora da Plataforma para o Direito Humano à Educação, Denise Carreira. "Mesmo alunos que não tiveram professores de disciplinas como Matemática, Física ou Química durante o ano inteiro foram aprovados", disse.
Desde o dia 18 de junho, as crianças passaram a ser atendidas em sistema especial no Ciep Gregório de Mattos, perto do complexo. Por duas horas diárias, participavam de oficinas de arte e recebiam algum conteúdo das disciplinas regulares. Na época, a solução foi tomada para garantir a refeição das crianças - para muitas famílias, o almoço na escola é a refeição mais completa do dia ao qual as crianças têm acesso.
"Na verdade, a violência não está concentrada só naquele momento. A violência é uma realidade cotidiana, que reduz as jornadas escolares, provoca a alta rotatividade dos profissionais. É um desafio manter um processo de ensino num contexto como esse", afirmou Denise.
O local foi escolhido para receber a relatoria por conta dos confrontos que precederam as obras do PAC na região. O documento mostra que entre maio e agosto morreram 44 pessoas e 81 ficaram feridas. De 2 de maio a 30 de julho do ano passado, oito escolas e creches municipais e oito escolas estaduais tiveram as aulas suspensas.
Chamou a atenção da relatora o fato de as ações policiais não terem sido precedidas de orientação da Secretaria de Segurança às escolas. Ela defendeu a criação de um protocolo para as escolas em áreas de conflito armado no Rio. "O que percebemos é que não houve um trabalho de orientação anterior às operações policiais. Alguns diretores liberam as crianças, outros chamam os pais, ou mandam todos ficarem no chão. É preciso ter um procedimento padrão."
O documento mostra relatos de desespero dos profissionais de educação. Uma diretora conta que tentava localizar um grupo de estudantes, que voltava de um passeio escolar, no meio de um confronto entre policiais e traficantes. Em outra instituição, 100 alunos, dos mil que estudam ali, tiveram de ser encaminhados para tratamento psicológico. Outra escola teve o telhado da quadra "perfurado por centenas de tiros", o que impedia sua utilização nos dias de chuva.
O documento foi entregue ao secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.
Em nota, a secretaria informou que "o governo do Rio segue o firme propósito de desarmar traficantes e de recuperar áreas, historicamente, esquecidas pelo Estado e pela sociedade organizada (...) Desde o início das obras do PAC, em março, não há grandes incursões no complexo. Quanto ao relatório apresentado pela entidade, a secretaria estará sempre aberta ao diálogo, mas levará em consideração apenas as críticas construtivas."