Quinta-Feira, 14 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

Visão do BC para as contas externas

O relatório do Banco Central (BC) sobre as contas externas, cujo resumo divulgamos em nossa edição de ontem (Economia, pág. B5), pretendeu transmitir tranqüilidade em vista do crescimento do déficit em transações correntes.

Os argumentos parecem convincentes. Sem abraçarmos um pessimismo exagerado, e concordando em que a exploração das jazidas de petróleo, recentemente descobertas, poderá mudar muito a situação da balança comercial, achamos a visão do BC excessivamente otimista, por não considerar a velocidade com que as contas externas estão se deteriorando.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), ao analisar as contas externas do 1º semestre de 2008, mostrou como, na comparação com o mesmo período de 2007, houve uma brusca deterioração. As transações correntes apresentavam, no ano passado, um superávit de U$ 2,438 bilhões, que neste ano se transformou num déficit de US$ 17,313 bilhões; as contas financeiras, que por princípio devem financiar o déficit das transações correntes, tiveram seu fluxo reduzido de US$ 60,321 bilhões para US$ 38,578 bilhões.

Assim, o superávit do balanço de pagamentos caiu de US$ 61,610 bilhões, no ano passado, para US$ 19,238 bilhões, no 1º semestre deste ano.

Se levarmos em conta que o próprio Banco Central estima em US$ 28,8 bilhões o déficit das transações correntes neste ano (já atingiu 60% do previsto no 1º semestre), a ser coberto por um superávit de US$ 58,8 bilhões das contas financeiras, veremos que o resultado do exercício de 2008 poderá ser bem diferente das previsões.

De fato, a crise dos empréstimos subprime nos EUA mudou totalmente o panorama dos fluxos de capitais. Houve um recuo dos investimentos diretos estrangeiros de portfólio: a média mensal, que foi de US$ 4,029 bilhões no 1º semestre de 2007, com US$ 4,7 bilhões em junho, neste ano caiu para US$ 3,6 bilhões, com US$ 405 milhões, dada a rapidez da deterioração. Por outro lado, as despesas com remessas de lucros e dividendos passaram de US$ 1,5 bilhão, em 2007, para US$ 3,7 bilhões, em 2008.

As contas de juros melhoraram em razão da remuneração das reservas - cujo custo interno é elevado e deveria parar de subir -, enquanto os custos dos empréstimos externos aumentaram. O panorama externo favorece uma maior deterioração das contas externas e só o petróleo poderá evitar uma crise a prazo médio...