Sexta-Feira, 15 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

Moscou usa termos do acordo para justificar ação militar

Rússia exigiu que suas tropas tivessem permissão para atuar como ?força de paz? fora de regiões separatistas

Andrew Kramer, The New York Times, Tbilisi

Eram quase 2 horas de terça para quarta-feira em Tbilisi quando o presidente da França, Nicolas Sarkozy, que acabara de chegar de Moscou, anunciou ter conseguido o que parecia impossível: persuadir o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, e o da Rússia, Dimitri Medvedev, a aceitar um cessar-fogo. Apertos de mão e felicitações foram enviados de todas as partes, mas, quando o sol nasceu, tanques russos voltaram a avançar, tomando posições na cidade de Gori, no centro da Geórgia.

Logo ficou claro que o cessar-fogo de seis pontos proposto por Sarkozy não apenas tinha fracassado, mas dava a Moscou ferramentas para entrar ainda mais na Geórgia usando como pretexto as chamadas "medidas de segurança adicionais" incluídas no acordo.

Segundo um alto funcionário do governo da Geórgia, Sarkozy também fracassou ao tentar convencer os russos a aceitar um prazo para o fim das operações militares.

Ao meio-dia de quarta-feira, diplomatas europeus começaram a alertar para os riscos de não reagir à agressão russa, enquanto membros do governo georgiano lamentavam, em Tbilisi, a fragilidade do Ocidente. "Da Europa e dos EUA, que foram incapazes de compreender o tamanho da ameaça", disse um diplomata georgiano, que participou das negociações entre Sarkozy e Saakashvili.

O mesmo diplomata, mais tarde, conseguiu uma cópia do acordo proposto pelo presidente francês e a enviou ao New York Times com as supostas alterações pedidas pelos georgianos, mas ignoradas pelos russos. Segundo diplomatas americanos e europeus, o que mais importa agora para os georgianos é saber se o texto do acordo dá margem para os russos justificarem a ocupação de Gori, que lhes permite controlar a principal estrada da Geórgia e isolar Tbilisi do porto de Poti, no Mar Negro, a mais importante entrada de suprimentos do país.

O acordo esboçado pelo chanceler da França, Bernard Kouchner, tinha quatro pontos: a renúncia do uso da força, o fim das hostilidades, a abertura de corredores para ajuda humanitária e o recuo das tropas russas e georgianas para as posições que ocupavam antes do conflito. Em Moscou, Kouchner encontrou-se com Sarkozy e com Medvedev para apresentar o plano. Nas reuniões no Kremlin, os russos insistiram em acrescentar ao texto mais dois pontos, que foram levados por Sarkozy a Saakashvili.

No quinto ponto, a Rússia exigia que suas tropas tivessem permissão para atuar como uma "força de paz", mesmo fora das regiões separatistas da Ossétia do Sul e da Abkázia - o que poderia ser revogado futuramente por um tratado. No sexto ponto, os dois lados concordariam em discutir futuramente o status das duas províncias separatistas.

É a linguagem vaga desse quinto ponto que permite às forças russas aplicar as tais "medidas adicionais de segurança" enquanto não for estabelecido o monitoramento internacional da região.

Os georgianos concordaram com a exigência desde que fosse incluído um prazo para o fim dessas "operações de paz" russas. Sarkozy respondeu que, sem o acordo, um ataque à capital da Georgia poderia ocorrer a qualquer momento.

"É uma situação difícil", teria dito o presidente francês. "Os tanques estão a 40 quilômetros de Tbilisi."

Sarkozy tentou, então, telefonar para Medvedev para convencê-lo a incluir o prazo pedido pelos georgianos. Por duas horas o presidente russo não atendeu aos chamados. Quando os dois se falaram, rejeitou a proposta.