Domingo, 17 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

Zeppelin quer voltar ao céu do Brasil, após 70 anos

Empresa conversa com Petrobrás e CVC para produzir dirigíveis que atuem em monitoramento e turismo

Jamil Chade

Setenta anos após a última viagem comercial do zepelim entre a Alemanha e o Brasil, a empresa responsável pelo dirigível negocia o retorno do mítico aparelho ao País. Na sede da empresa, no sudeste da Alemanha, os executivos receberam a reportagem do Estado com um aviso: os zepelins vão voltar a fazer parte dos cartões postais do Brasil.

A ofensiva no mercado brasileiro faz parte de uma estratégia da Zeppelin de retomar a produção em larga escala dos dirigíveis. A idéia já não é mais a de transportar passageiros em viagens transoceânicas, mas de encontrar funções específicas, seja no setor de turismo, monitoramento ambiental, pesquisas científicas ou mineração. Um estudo feito pela companhia chegou à conclusão de que haveria uma demanda no mundo para pelo menos 40 zepelins. Isso sem contar com eventuais aeronaves para fins militares e de policiamento.

Entre 1908 e 1937, 119 zepelins foram construídos na Alemanha. Sem aviões comerciais ainda plenamente desenvolvidos, a empresa conseguiu um nicho de mercado importante e estabeleceu rotas aos Estados Unidos e ao Brasil, usadas até pelo compositor Heitor Villa-Lobos. Mas um desastre em 1937 minou o sonho da empresa. Mais tarde, o governo da Alemanha usou os aparelhos para bombardear Paris e outras cidades. Os aliados, em resposta, destruíram a região de Friedrichshafen, exclusivamente para impedir a fabricação dos dirigíveis.

Somente no início dessa década, as gigantes estruturas voltaram a ocupar os céus, primeiro da Alemanha. Mas logo do Japão, África e, nos próximos meses, dos Estados Unidos. Outros dirigíveis foram criados por uma série de empresas e são usados em várias partes do mundo como plataforma publicitária e mesmo para a transmissão de eventos esportivos. Mas nenhum tem autorização para comercializar passagens e apenas a Zeppelin tem um modelo que é 100% controlado por pilotos. "Somos os únicos a ter o direito de vender passagens a qualquer pessoa", afirma o vice-presidente da empresa, Michael Scheischke.

Desde 2001, quatro zepelins foram construídos. Um foi vendido ao Japão e outro está na Alemanha. Um terceiro foi deslocado para a África e, até o ano passado, era usado por uma mineradora. Mas uma tempestade o destruiu. O quarto zepelim está à caminho de São Francisco, nos Estados Unidos.

"Já temos mais três pedidos dos americanos e vamos começar a construção de um quinto dirigível ainda neste ano", explica o vice-presidente. Para ele, a entrada no mercado americano será um grande passo para a retomada do zepelim. "Esperamos que, a partir daí, possamos nos expandir com velocidade", diz.

O Brasil é um dos focos. Os executivos da empresa estiveram no País sem alarde procurando parceiros e investidores. Segundo Schieschke, existem conversas hoje com pelo menos três empresas: Petrobrás, Vale e a operadora de turismo CVC. "Visitei Salvador, Rio e outros locais. Há um grande potencial no País", diz. O turismo é a grande esperança da Zeppelin. A empresa negocia pacotes com a CVC e um agente trabalha no Brasil vendendo a idéia do dirigível. "Seria genial ter um em Copacabana. Acredito que os usuários possam ser os passageiros de cruzeiros", afirma Scheischke. Uma dificuldade: cada passagem seria vendida a US$ 600.

Um dos estudos feitos pela empresa concluiu que há outros três potenciais usos do dirigível no Brasil. Um deles seria para o controle de redes elétricas, espalhadas pelo território nacional. Outro seria o monitoramento dos milhares de quilômetros de gasodutos que o País começa a construir. "Por isso é que estamos em contato com a Petrobrás", informa Schieschke.

Na mineração, a Zeppelin acredita que a Vale pode repetir a experiência da empresa de diamantes De Beers, que usou o dirigível em expedições em Botsuana. "Acreditamos que há um mercado importante, especialmente em países com grande área territorial. Vamos buscar um parceiro", afirma o engenheiro chefe da empresa, Robert Gritzbach.

Mas há outros investidores privados que também procuraram a empresa para sugerir projetos no Brasil. "Um deles sugeriu que usássemos o zepelim como substituto para os helicópteros em São Paulo. Eu acho isso uma grande idéia. Salvo que não temos onde pousar os aparelhos. Como é que vamos aterrissar uma máquina de 70 metros em um edifício no centro de São Paulo?", questiona Scheischke.

Enquanto o primeiro negócio no Brasil não é fechado, a empresa se apressa em conseguir uma autorização de vôo comercial da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). "As autoridades brasileiras indicaram que estariam dispostas a nos certificar", afirma Gritzbach. Contatos foram feitos com o governo e mesmo com militares.

DIFICULDADES

Mas a falta de profissionais capazes de conduzir o dirigível pode inviabilizar o projeto. Só existem 13 pilotos de zepelins hoje no mundo. Quatro deles em Friedrichshafen. Um é Hans Paul Strohle, que por anos pilotou jatos comerciais. "É necessário ter uma formação específica. O aparelho é complexo", afirma. A Zeppelin garante que está disposta a treinar pessoal para garantir as vendas.

Outro problema é a falta de infra-estrutura. No total, um investidor terá de gastar cerca de US$ 11 milhões para comprar um Zeppelin e toda sua estrutura, incluindo caminhões que levam torres para "estacionar" os aparelhos. "Os aeroportos hoje não estão adaptados a essa máquinas", afirma Strohle.

Mesmo assim, a Zeppelin está otimista com o futuro dos dirigíveis a ponto de fazer planos para os próximos 20 anos. O engenheiro-chefe da empresa conta que recebe pedidos quase diários para o uso do zepelim. Alguns chegam a ser alvo de gargalhada. Um investidor japonês, por exemplo, sugeriu a criação de um dirigível para ser usado como um hotel flutuante. Outro propôs o uso no combate a incêndios.