Segunda-Feira, 18 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

Um mito da vida teatral brasileira

Inaugurado em 1950, o Cultura Artística tornou-se logo palco do que a cena artística do País tinha de melhor

João Luiz Sampaio

À primeira vista, pareceu estranha a alguns a possibilidade de construir naquele pequeno terreno da região central da cidade um novo e moderno teatro. Não demorou muito, no entanto, para que o projeto de Rino Levi, a que se juntou o enorme painel de Di Cavalcanti, logo fizesse do Teatro Cultura Artística um dos principais marcos arquitetônicos de São Paulo. E, passando a abrigar as apresentações promovidas pela Sociedade de Cultura Artística, o prédio logo se tornaria símbolo também da riqueza da atividade artística da cidade, evidenciada nas centenas de concertos e apresentações teatrais que abrigou ao longo de quase 60 anos de história.

O Cultura Artística foi inaugurado em 1950. Era um desejo antigo da Sociedade que, desde 1912, realizava em palcos como o Teatro Municipal ou o Conservatório Dramático e Musical suas temporadas. Em uma época na qual a cidade vivia à mercê dos empresários artísticos, a programação elegia como foco a qualidade, revelando solistas brasileiros, formando o público paulistano e atraindo ao País pela primeira vez grandes músicos e bailarinos europeus. "O que determina em principal o mérito primeiro e a utilidade magnífica da Sociedade de Cultura Artística é a qualidade musical que impõe a São Paulo, se erguendo a pioneira na apresentação de grandes virtuoses e agrupamentos estrangeiros de celebridade mundial", escreveu Mário de Andrade em 1942, ano do 30º aniversário da entidade, idealizada por Nestor Pestana, então redator-chefe do Estado.

Passar os olhos pela lista de nomes que passaram pelos dois palcos do teatro - a sala Esther Mesquita, que recebeu esse nome em homenagem à diretora por mais de três décadas da Sociedade e responsável pela construção do teatro, e a Sala Rubens Sverner - é ter contato com um recorte bastante fiel do que foi a vida musical, e não apenas a brasileira, na segunda metade do século 20. A começar pela sua inauguração, em que dois de nossos maiores compositores, Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, revezaram-se à frente de uma sinfônica. Depois dela, são tidas como históricas as noites em que se apresentaram por lá artistas como os pianistas Claudio Arrau, Arthur Rubinstein, Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Fritz Jank, Nelson Freire; os maestros Eleazar de Carvalho, Kurt Masur, Pierre Boulez, Zubin Mehta; os violoncelistas Mstislav Rostropovich e Yo-Yo Ma. E, se a música foi sempre o foco principal da entidade, sua colaboração à cena teatral não pode ser tratada como mera nota de rodapé - Jardel Filho, Cacilda Becker, Alfredo Mesquita, Tônia Carreiro, Odete Lara, Procópio Ferreira e Paulo Autran são apenas alguns dos muitos nomes-chave da dramaturgia brasileira que tiveram suas trajetórias unidas em algum momento à do Cultura Artística.

Em 58 anos de atividade, houve, como não poderia deixar de ser, momentos complicados - a falta de verba fez com que o prédio fosse alugado, nos anos 60, à Excelsior. Mas o significado do Cultura Artística vai além do valor pontual das grandes noites de música e drama em seus palcos. O que chama atenção é a consistência com que a programação se desenvolveu ao longo dos anos, mantendo-se sempre fiel à proposta de oferecer espetáculos de qualidade e tornando-se símbolo do que a vida cultural de São Paulo e, por que não, do Brasil, tem de mais rico - o talento para fazer dialogar a arte e os anseios da sociedade.

O futuro ainda é incerto. Do prédio, restou apenas, na fachada, poupado pelas chamas, o painel de Di Cavalcanti. Resta torcer para que, um dia símbolo da modernidade de uma São Paulo que se transformava, ele, agora, possa ser também símbolo da possibilidade de reconstrução de um mito do teatro brasileiro.


REPERCUSSÃO

José Mindlin

Presidente da Sociedade de Cultura Artística

"Foi uma notícia chocante. É uma pena, foi um teatro construído a duras penas e para reconstruí-lo não vai ser fácil. É assustador o fogo. Tenho ligação com a Cultura Artística a minha vida inteira e há uns 15 ou 20 anos sou o presidente. A Sociedade de Cultura Artística é uma instituição importante de São Paulo. Antes da construção do teatro, fazia-se concertos em salas diferentes da cidade. Esta semana vamos resolver o que fazer sobre o que ocorreu"

Sábato Magaldi
Crítico teatral, ensaísta e professor

"Sei que o Teatro Cultura Artística foi uma realização maravilhosa por parte de d. Esther Mesquita. Não se fez discriminação de nada, mas pensou-se, antes de qualquer coisa, na qualidade da programação. É uma perda terrível, inestimável, mas

acredito que as pessoas de bom gosto vão reconstruí-lo, espero que tenham o bom senso de fazer isso. É um teatro de belíssima tradição que não pode desaparecer de uma hora para outra. A cidade de São Paulo não pode perder um teatro dessa qualidade, é uma obrigação de todo mundo trabalhar para resgatá-lo"

Jamil Maluf
Maestro, diretor do Teatro Municipal

"Fiquei extremamente estarrecido quando soube do incêndio. O Teatro Cultura Artística presta um serviço inestimável para a música de concerto e para o teatro há muitas décadas. O teatro tem uma acústica incomparável, especial, já estive lá atuando como maestro diversas vezes. Faço votos para que o teatro seja reconstruído e volte logo a funcionar. O Municipal acolherá o concerto que ocorreria amanhã (hoje) no Cultura Artística"

Maria Adelaide Amaral
Escritora e dramaturga

"Fiquei desolada como todo mundo, ainda mais porque sou assinante da Sociedade de Cultura Artística. É um espaço que tem uma história, que tem uma relação importante com o teatro brasileiro desde a década de 1950, abrigou companhias importantíssimas. Além disso, é também um espaço precioso para a música erudita nessa cidade onde os espaços para a música são cada vez mais raros. Vamos com certeza nos mobilizar e reconstruir esse patrimônio muito importante para a cultura não apenas de São Paulo mas de todo o Brasil."

Roberto Minczuk
Maestro, diretor do Teatro Municipal do Rio e da Orquestra Sinfônica Brasileira

"O Teatro Cultura Artística é um marco no Brasil e em São Paulo. A minha trajetória está muito ligada a esse palco. Tenho uma ligação muito forte com o teatro. Foi lá, em 1985, com 18 anos, que ganhei o Prêmio Eldorado. A finalíssima foi justamente na sala Esther Mesquita, agora destruída. Também foi no teatro que conheci o diretor da Juilliard School, de Nova York, que me ofereceu uma bolsa para estudar naquela escola. Atualmente, moro ali perto, na Praça Roosevelt, e consigo ver da minha janela o Cultura Artística. Hoje, no entanto, contemplei aquela devastação e foi uma sensação muito triste. O Cultura Artística não é apenas um teatro, ele tem alma, tradição, conteúdo e isso não se destrói, jamais. Ele precisa ser reconstruído naquela região culturalmente dinâmica e acredito até que ele pode se tornar um teatro melhor, mais moderno. É preciso, agora, olhar de forma otimista para o que aconteceu"