Quarta-Feira, 20 de Agosto de 2008 | Versão Impressa
TCU: Abin sacou no cartão até para pagar informante
Relator considera parte da prestação de contas irregular e multa ex-diretor de administração do órgão
Luiz Weber, BRASÍLIA
Entre as irregularidades detectadas no uso do cartão estão a "aquisição irregular de material permanente e pagamentos e gratificações a informantes e colaboradores eventuais".
Embora fora do radar da auditoria, que não analisou as prestações mais recentes, os técnicos constataram que os arapongas gastaram cerca de R$ 11,5 milhões via cartões, mais que o dobro em relação a 2006 (quando somaram R$ 5,5 milhões). O ministro Ubiratan Aguiar, relator do processo, estranhou que o volume de recursos sacados tenha praticamente dobrado de um ano para outro.
"A agência quase exclusivamente utilizou o cartão de pagamento do governo federal para fazer saques e realizar pagamentos em moeda corrente, não observando o caráter excepcional dessa modalidade. As características peculiares da Abin não justificam, de modo absoluto, a prática generalizada desse procedimento", disse Aguiar em seu relatório.
O governo argumenta que esse aumento dos gastos da Abin com o cartão foi causado pela utilização de agentes durante os Jogos Pan-Americanos do Rio.
O governo federal já gastou R$ 98,7 milhões de 2004 a 2007 em despesas sigilosas, consideradas de interesse da segurança do Estado. Esse tipo de gasto, que inclui contas da Presidência da República, vem aumentando ano a ano. Em 2007, o governo pagou cerca de R$ 35,7 milhões em despesas sigilosas, usando os serviços de 607 empresas. O valor é 42,8% superior ao de 2006 - em que os gastos desse tipo somaram cerca de R$ 25 milhões - e mais que o dobro dos R$ 16,9 milhões registrados em 2004.
O mesmo tipo de despesa ocorre em outros órgãos com atividade policial ou de inteligência, como a Polícia Federal, por exemplo. Mas há gastos de setores do governo, como Casa Civil e o próprio gabinete da Presidência da República, que também são protegidos pelo sigilo.
Os recursos utilizados de forma sigilosa começaram a ter registro no Portal da Transparência, site na internet administrado pela Controladoria-Geral da União (CGU), a partir de 2004. Naquele ano, o total usado sob essa classificação, incluindo os gastos da Abin e de outros órgãos, como a Polícia Federal, foi de cerca de R$ 16,9 milhões, com pagamentos feitos a 424 empresas. A partir daí, esse tipo de despesa só fez crescer. Em 2005, pulou para R$ 20,9 milhões, com pagamentos para 492 empresas. No ano seguinte, chegou a R$ 25 milhões, com 465 empresas remuneradas. Até alcançar a marca do ano passado, de R$ 35,7 milhões, com 607 empresas.
MATILDE
O caso dos gastos abusivos com cartões corporativos ganhou visibilidade com o escândalo que envolveu a ex-ministra da Igualdade Racial Matilde Ribeiro, revelado pelo Estado. Reportagem de 13 de janeiro mostrou o crescimento dos gastos com os cartões do governo e apontou Matilde como a recordista de despesas em 2007. A então ministra pagara com cartão R$ 175.428,55 em aluguel de carros, além de tê-lo usado em free shop. Por conta do escândalo, Matilde pediu demissão em 1º de fevereiro.