Quinta-Feira, 21 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

Furacão Bolt

Jamaicano comemora aniversário com recorde nos 200 m e entra para a história do atletismo

Eduardo Maluf e Wilson Baldini Jr.

Eram 22h30 de ontem em Pequim (11h30, de Brasília) quando os organizadores do Jogos aumentaram o som ambiente do Ninho de Pássaros. "Parabéns a Você" foi a música escolhida para embalar a festa de Usain Bolt, que completa 22 anos hoje. O aniversário é do jamaicano, mas quem ganhou presente foram as 90 mil pessoas no estádio. Como um furacão, o velocista levou o ouro nos 200 metros rasos e, em 19s30, quebrou o recorde mundial que pertencia desde 1996 ao norte-americano Michael Johnson (19s32).

Os chineses vibraram como se a sua seleção tivesse marcado um gol no último minuto de uma final de Copa do Mundo. Todos se levantaram assim que foi dada a largada e não voltaram mais para os assentos.

Depois da chegada, Bolt estirou-se no chão, exausto. E foi ao delírio após a confirmação oficial dos 19s30. Pegou a bandeira da Jamaica, tirou o tênis, dançou reggae e deu a volta olímpica. Pela primeira vez em todos os tempos um atleta bate o recorde dos 100 m e 200 m em uma mesma Olimpíada.

Duas incríveis horas separaram o fim da prova do início de sua entrevista coletiva. Os amigos e colegas o cumprimentavam, as emissoras de tevê queriam palavras exclusivas e os funcionários chineses corriam atrás de fotos e autógrafos.

Nesse intervalo, o júri anunciou a desclassificação do 2º colocado, Churandy Martina, das Antilhas Holandesas, e do 3º, Wallace Spearmon, dos Estados Unidos, por terem invadido a raia vizinha. A prata e o bronze ficaram, assim, com os norte-americanos Shawn Crawford e Walter Dix.

A disputa do salto com vara seguia forte no Ninho de Pássaros, mas boa parte dos 90 mil pagantes já havia ido embora. Depois do show de Bolt, nada mais interessava, e as arquibancadas se esvaziaram.

A lotação ficou por conta da sala principal de entrevistas, em que centenas de jornalistas brigavam por espaço para ver e ouvir o campeão.

O jamaicano parecia uma criança ao receber o brinquedo sonhado, não sabia como conter a alegria. "Amo mais os 200 m do que os 100 m", afirmou, ao justificar o entusiasmo ainda maior do que no sábado, quando fez 9s69 e levou o ouro nos 100 m. "Os 200 m são mais representativos para mim, porque é a prova que disputo desde os 15 anos." Há duas semanas, afirmou que só voltaria para seu país "100% feliz, se ganhasse as duas provas". Atingiu o objetivo e, como bônus, ainda derrubou dois recordes.

Durante a coletiva, um dos telões da sala exibia sua vitória. Bolt percebeu, olhou a tevê, parou e disparou: "Nossa, pela tevê pareço rápido mesmo." Em seguida, num momento de humildade, declarou que a pista do estádio "estava rápida demais", o que facilitou seu excelente desempenho.

INSINUAÇÕES DE DOPING

As marcas do jamaicano espantam o mundo do atletismo e criam as primeiras insinuações. Muita gente diz apostar no uso de doping. "Sua vitória é uma grande brincadeira", declarou o corredor alemão Tobias Unger. "Em sua ilha (Jamaica) fazem o que querem."

O brasileiro Sandro Viana também o criticou. "Acho muito estranho o desempenho dele." Bolt e seu staff negam com veemência qualquer tipo de ato ilícito. "Eles podem ir à Jamaica quando quiserem para ver o que fazemos", rebateu Herb Elliott, médico do campeão.

Depois do feito inédito, o primeiro-ministro jamaicano, Bruce Goldin, comemorou a marca. "Ele é um super-homem. O mundo nunca viu nada como ele."