Sexta-Feira, 22 de Agosto de 2008 | Versão Impressa
Espalha-se o boom de imóveis
Águas Claras, com 60 mil habitantes e 400 novos edifícios prontos, tem outros 120 em construção. Em Porto Velho estão sendo construídos três prédios para cada edifício novo já pronto e implantados dois shopping centers. Nova Lima, com apenas 70 mil habitantes, tem hoje 34 loteamentos prontos e 7 em construção, destinados à classe média alta e abriga um número crescente de edifícios comerciais, para atender às 1.700 empresas que se instalaram na cidade. Em Palmas, o crescimento demográfico de 156,5% em uma década, um dos maiores do País, aliado à criação de empregos públicos e de cursos universitários explicam o lançamento de dezenas de edifícios para abrigar os novos moradores. No Espírito Santo, tanto na capital como em Vila Velha, Serra e Cariacica, na região metropolitana de Vitória, 353 empreendimentos estão em construção, com 23.081 unidades habitacionais, segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil. Em Goiânia e Natal, a oferta de imóveis cresceu além da demanda e o mercado já enfrenta retração.
Alimentados pela oferta de crédito imobiliário, os investimentos na construção civil ajudaram a elevar a Formação Bruta de Capital Fixo para 17,5% do PIB em 2007 e 18,5% do PIB, conforme estimativas recentes, no primeiro semestre de 2008. "O crédito farto fez que o boom se espalhasse", afirmou o diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio, Luiz Paulo Pompéia. No primeiro semestre, 128,4 mil imóveis, no valor total de quase R$ 13 bilhões, foram financiados com recursos das cadernetas de poupança. Para o ano, estima-se que serão financiadas mais de 260 mil unidades. Nas faixas de renda alta, as famílias preferem usar recursos próprios a se endividar. É nas camadas de renda média, portanto, que o crédito imobiliário é mais utilizado.
Como sempre acontece, o boom imobiliário não tem sido acompanhado dos investimentos correspondentes em serviços públicos. Faltam, nas áreas em expansão imobiliária, serviços básicos - principalmente água e esgoto tratados, transportes públicos de massa, segurança. Reproduzem-se, nessas áreas, os problemas das metrópoles, como os congestionamentos de trânsito, deficiências de infra-estrutura e o aumento da criminalidade. "A principal questão é que não se calcula a capacidade de suporte das cidades", afirmou o urbanista Cândido Malta.
O boom imobiliário provocou, ainda, uma grande procura por terrenos para incorporação, materiais de construção e mão-de-obra especializada. Com isso, o Índice Nacional dos Custos da Construção (INCC-M) subiu 7,68%, nos primeiros sete meses de 2008, superando os 6,04% de todo o ano passado. Financiamentos imobiliários oferecidos pelas construtoras baseiam-se, muitas vezes, no INCC-M ou no IGP-M, que aumentou 8,71%, em 2008. Por ora, o aumento da inflação não bastou para afugentar os compradores, segundo avalia o presidente do Sindicato da Habitação, João Batista Crestana. Isto se explica porque os prazos de aquisição dos imóveis são, hoje, bem maiores do que eram na primeira metade desta década e porque os juros são relativamente módicos (em torno de 9% ao ano mais TR).
O ritmo da construção civil tem muitos aspectos positivos, pois fortalece o emprego e o investimento. Mas os poderes públicos deveriam antecipar-se às conseqüências de um boom, dotando os bairros de infra-estrutura urbana.