Sexta-Feira, 29 de Agosto de 2008 | Versão Impressa

Chapter 9 revela um Ed Motta mais clean e fantasioso

Novo trabalho que chega hoje às lojas, todo em inglês, combina pop, jazz e rock

Adriana Del Ré

A sonoridade da linguagem inglesa costuma martelar na cabeça do músico Ed Motta nos momentos em que está compondo. Mesmo quando as músicas brotam com vocação de serem cantadas em português, a sonoridade impregnada nelas é a inglesa. Que ritmos ensolarados e tropicais que nada. Até em seus sambinhas, Ed enxerga "uma queimadura de praia californiana". O cantor e compositor nunca negou a forte influência que tem da música americana e britânica. Daí a fazer um projeto só com canções em inglês foi um pulo. Tudo bem, um pulo demorado para quem está completando 20 anos de carreira. O CD Chapter 9, seu nono trabalho, chega hoje às lojas e ao site da gravadora Trama, onde as faixas estarão disponíveis para downloads gratuitos. No exterior, será lançado em CD e vinil. São dez faixas inéditas, todas elas cantadas em inglês. Ed Motta poderia vir com um discurso cheio de rococó, garantindo que este novo disco foi fruto de anos de elaboração. Mas não. A história toda nasceu e se deu em estúdio, como uma brincadeira de experimentar.

No início de 2007, ele assumiu os instrumentos e começou a criar as composições. Contrariando velho hábito de lapidar ao máximo as bases das canções, manteve os arranjos gravados de primeira. "Preservei o primeiro segundo de idéia de arranjo de todas as músicas, a primeira chama", conta. O que seria um disco de Ed Motta e banda virou projeto de um homem só, com ele cantando, tocando e assinando a produção. "O disco era para ser gravado com outros músicos, mas comecei a conviver com essas gravações." Só não foi uma incursão totalmente solitária, porque o inglês Rob Gallagher e o brasileiro Cláudio Botelho deram letra às músicas.

Ex-vocal da banda Galliano e atual Two Banks of Four, Gallagher conheceu Ed por intermédio de um amigo comum. Durante a feitura do CD, o autor brasileiro enviava suas músicas pela internet e o britânico as devolvia com letra e, de quebra, gravadas em sua voz. "Adorei o jeito dele de cantar, com aquele timbre bem inglês", diz Ed. Todas as canções de Chapter 9 são assinadas pela dupla, exceto The Man From The Oldest Building, parceria com Cláudio Botelho.

Ed conheceu a dupla Botelho e Charles Möeller, responsável pela montagem de grandes espetáculos no Brasil, como Tudo É Jazz, e lhes mostrou alguns temas que criou em cima do espírito da Broadway. O encontro rendeu a parceria musical de Botelho e Ed no musical 7. A dupla volta a atacar agora em The Man..., abrindo caminho para um disco "inclassificável", na definição do produtor Kassin. A cada disco, é bom ver (e ouvir) o músico se reinventar. Neste, a sonoridade vigente beira o fantasioso, imagético, nebuloso. A interpretação vem mais clean, sóbria, sem as tradicionais firulas vocais que viraram sua marca.

Tem pop, jazz, psicodelismo, rock. E pitadas de anos 80 reforçadas em guitarras e teclados, como na ótima You?re Supposed To... Reflexo do que ele anda escutando nos últimos anos. Para surpresa dos amigos, foi pego revisitando nomes da cena eighties, como Joy Division, The Cure, New Order. Definitivamente, Chapter 9 está longe de ser mais do mesmo.