Segunda-Feira, 15 de Setembro de 2008 | Versão Impressa
Calota polar no Ártico nunca foi tão pequena
Cobertura de gelo no Pólo Norte, em 2008, regride a nível recorde, inferior a 4,13 milhões de km2, diz WWF
Jamil Chade, GENEBRA
"Há menos gelo no Ártico neste ano que em qualquer outro desde que os controles começaram", alertou Martin Sommerkorn, coordenador do programa do Ártico do WWF.
Na prática, o Ártico pode se transformar em um continente sem gelo por alguns dias do verão. Os ambientalistas alertam que as conseqüências para o aquecimento global podem ser "catastróficas".
O gelo que está sendo perdido é o mais antigo e grosso, o que significa que a região está sendo coberta por uma camada cada vez mais fina.
Pelos cálculos do WWF, a área de gelo que tem pelo menos cinco anos caiu 56% entre 1985 e 2007, enquanto o gelo mais antigo praticamente desapareceu.
"Estamos esperando que 2008 seja o pior ou o segundo pior com respeito à cobertura de gelo no verão", afirmou o cientista. "Já existem sinais de que espécies como o urso polar estão sofrendo efeitos negativos por causa da erosão das plataformas onde vivem", disse.
O motivo do degelo é o aquecimento global. E uma de suas conseqüências é mais aquecimento. Como o gelo é branco, a maior parte da luz do sol que incide sobre ele é refletida de volta ao espaço. Ao derreter, no entanto, fica em seu lugar o mar aberto, que, sendo mais escuro, absorve a luz e esquenta. Isso ajuda a derreter ainda mais o gelo. O processo continua até que não haja mais o que derreter.
Em observações de campo realizadas durante as duas últimas décadas, Peter Wadhams, professor de física oceânica da Universidade de Cambridge, verificou que a espessura média do gelo foi reduzida em 40%.
"Trata-se também do primeiro ano em que a passagem entre a América do Norte e a Rússia está livre do gelo", disse Sommerkorn. Estrategistas militares consultados pelo Estado confirmam que tanto os norte-americanos quanto os russos estão dispostos a financiar expedições de peso para pequisar reservas de petróleo na região.
IRONIA
"Tudo indica que temos uma Arábia Saudita debaixo do Ártico. Até hoje ela era inacessível. Mas com o petróleo a preços altos e o degelo, os incentivos são reais para explorar essa possibilidade", afirmou Don Gautier, chefe do Departamento de Geologia dos EUA. Os campos de gás e petróleo sob a calota polar ártica são estimados por alguns geólogos em 25% das reservas mundiais não descobertas.
Mark Serreze, especialista do Centro Nacional de Neve e Gelo da Universidade do Colorado, tem apontado a "grande ironia" desse processo: o derretimento da calota polar aumentaria o acesso a mais combustíveis fósseis e sua exploração aceleraria ainda mais o ritmo de mudança climática.