Domingo, 21 de Setembro de 2008 | Versão Impressa
A vida é maior do que a verdade
Filosofia em Comum, de Márcia Tiburi, faz crítica ao mau uso das palavras e ao pensamento hermético
Fabrício Carpinejar
Diante de uma borboleta, o leitor exclama: "Olha uma borboleta!"
O crítico revida, entediado:
- Ah! sim, um lepidóptero...
A filósofa Márcia Tiburi tenta transformar o lepidóptero novamente em borboleta, e lança Filosofia em Comum para descascar o jargão da área (inacabar a fala, já que o jargão é um dizer acabado).
Uma obra sedutoramente estranha porque é uma ponte de conversa até o livro. Não é feito para filósofos, mas para iniciantes.
A autora partilha a palavra Taumas em sua aparência e essência, ou seja, um espanto com as coisas que existem. Quando pensamos que ela vai para um lado mais acadêmico, ela finta e vai para outro lado mais bossa nova. Cheia de dribles e um inusitado faz-de-conta da subjetividade.
Diante dela, o público se sentirá envolvido como uma conversa fiada. É um método criativo para descobrir a leveza do pensamento e estabelecer que a verdade não é maior do que a vida. Pois estabelece a estética de conversar mais do que de resumir, talvez pretendendo glorificar o prazer do convívio.
Diferente do O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, Tiburi não romanceia a charmosa biografia dos filósofos, mantém seu foco no devaneio. Não quer nos conduzir ao universo da filosofia, e sim provar que a filosofia é parte da rotina.
Nem todos são filósofos, entretanto, todos precisam da filosofia. Quem não agüenta o vazio é determinado por ele.
Basicamente, encarna uma história das idéias sobre as idéias partindo do senso comum.
Usa a seu favor sua experiência comunicativa de sala de aula e do programa Saia Justa. Ela escreve como fala. Simples, não subestimando o interlocutor, mas propondo perguntas e respostas ingênuas que muitos não teriam coragem de fazer, preocupados em preservar uma falsa erudição. "Filósofos nunca foram sábios, são apenas perguntadores, provocadores dispostos à aventura do conhecimento, da busca da verdade, mesmo que ela não seja apenas diversão", diz.
O livro é um manual de pensamento experimental, ou de desorientação orientada, ou - como afirma a escritora - um dispositivo para destruir os rótulos do que conhecemos como pensar. Pensar é discordar do pensamento, suportar o horror metafísico do não saber, abrir-se para a curiosidade selvagem da ignorância. "A ignorância é a medida do conhecimento", explica. Invoca uma espécie de ceticismo esperançoso: listar as certezas pelas incertezas, e crer na dúvida.
Esse é o primeiro ponto: ninguém sai do livro sabendo, sai do livro não sabendo, mas sabendo que não sabe. Dar consciência é experimentar a responsabilidade de formular uma visão de mundo por sua conta e juízo.
Nesse sentido, a escritura destaca mais a liberdade de pisar em falso do que acertar o passo com o escopo enciclopédico.
Transfere para a filosofia o que Italo Calvino empreendeu na literatura em Se Um Viajante Numa Noite de Inverno. No romance, Calvino narra o leitor chegando à livraria, folheando o próprio livro, apaixonando-se por uma leitora. O enredo, em suma, é o leitor. Em igual acrobacia, Tiburi enxerga o leitor com ela, interpela diretamente ("Isso mesmo, vou descrever o que penso, eu mesmo; primeiro eu, depois você"), criando blocos do texto em itálico para aumentar a identificação. A descrição do pensar é o que importa.
Uma das descobertas de Márcia Tiburi consiste em propor no subtítulo o ato de "ler junto". Quebra a soberania da solidão da leitura, a monarquia da absorção do conhecimento. Se dois lêem ao mesmo tempo, não haverá concordância, acelerando o atrito e a contestação. Ler sozinho é concordar, ler acompanhado é discordar. Ler acompanhado é explicar o que não entendeu e pedir explicação, é abandonar verdadeiramente o livro.
Assim o leitor nem é leitor, é ouvinte, numa postura socrática de ler em voz alta a alguém, esquecendo a própria leitura e cedendo aos comentários e inserções verbais do outro. É como um volume vazado pela casa. Inundado de registros paralelos. Não é uma obra parada, "agora vou ler"; está em movimento, "agora vou caminhar".
O que Márcia Tiburi articula não é fácil, atende a dois deuses do discurso, reunindo o alto e o baixo ao planificar o raciocínio e aprofundá-lo simultaneamente. Às vezes, repercute introduções dispensáveis ("O que aproxima a filosofia e a poesia é o fato de que se elaboram por meio de palavras"). Na maior parte, apóia-se na obviedade para acender as luzes da densidade ("Posso até dizer que o ser da linguagem é o impreciso que nela habita").
Sua teimosia está em recuperar a noção da filosofia como gesto, criticando que ela se acomodou na forma de literatura e se cristalizou como escrita. O fulgor literário seria apenas um dos momentos, não o único. A filosofia requer um segundo tempo, performático. Criar uma ação com o corpo, empregar a voz como laço da palavra.
A filosofia não poderia ter encontrado atriz mais contundente.
Fabrício Carpinejar, escritor e jornalista, é autor de Canalha! (Bertrand Brasil, 2008)
Filosofia em Comum
Márcia Tiburi
Record
184 págs., R$ 24